Grave e religiosamente soou na alta torre o primeiro dobre vesperal da Ave Maria. Algumas cabeças descobriram-se e o homem abaixou a voz. Houve um doce silencio mystico, rapido como um voto d’alma em desespero e casto como uma oração. Pequenos, de mãos ás costas, pernas abertas, levantavam os olhos para a torre onde o grande sino emborcava lentamente, de espaço a espaço, soturno. De longe, na aragem da tarde, vinham toques militares, finos, estridentes, com uma vaga saudade, fazendo pensar em acampamentos guerreiros, á hora santa do baixar da noite, congregando para a reza todos os regimentos exhaustos das batalhas. O doutor, que sahira do grupo limpando o rosto, falou-me:

—Não sei se deva attribuir ao meu temperamento ou se a um resto de crença que guardo na alma, esse estranho sentimento de religião que em mim despertam os sinos. Não ouço sem commoção o toque da tarde: Parece-me sempre que é uma voz antiga que vem do fim dos seculos atravéz dos espaços evangelisar na terra. A igreja quiz conservar o diapasão da palavra tremenda dos prophetas e creou o sino, que é, ao mesmo tempo, meigo e terrivel, consolador e implacavel. Agora, por exemplo, nesta meiga tranquillidade, este sino a soar não é bem uma oração do templo pela humanidade, em doces threnos sonoros que vão ondulando, ondulando, de lar em lar, de nuvem em nuvem a todas as almas e a Deus...? Não é uma doce elegia sobre a morte da luz? A mim, e desconto todo o meu romantismo, parece sempre que as estrellas esperam a voz da atalaia santa para sahir. Ha muezzin em minarete que valha um sino em campanario? Deixe lá falar, a nossa religião é divinamente poetica, divinamente humana, porque é a que mais se dirige ao coração. O Dies irae... ah! O Dies irae... o dobre a finados... o tocsin de alvoroto, o rebate em tempo de calamidade... É divino sinceramente, é divino!... Para as bocas de pedra das cathedraes só mesmo essas poderosas linguas de bronze.

Outro dobre cahiu e o echo foi rolando demoradamente.

—Conhece o La bàs de Huysmans?

—Não, doutor.

—Deve ler. É um livro interessantissimo. Livro de nevrotico, obra de enfermo, mas de excellente factura, arte magnifica. Ha lá umas doutrinas admiraveis sobre o sino, pregadas em um cubiculo, no alto da torre de Saint-Sulpice, pelo sineiro Carhaix, um catholico intelligente, profundamente versado em doutrinario antigo, de uma erudição de velharias que pasma. Esse homem obscuro reserva em um canto da sua lura volumes preciosos sobre a arte difficilima de tanger os sinos: «De Tintinabulis» «Essai sur le symbolisme de la cloche» e prova irrefutavelmente que é necessario, não sómente um perfeito conhecimento da arte, como muita alma para que se consiga tirar do metal sons symbolicos, se assim ouso exprimir-me:—para as cerimonias gloriosas do rito, para as duas horas extremas da luz, para o gloria meridiano, para os que nascem, para os que morrem, porque, infelizmente, o sentimento artistico vai desapparecendo—a democracia reduziu tudo a comesinho, a vulgar. Não ha muito, ouvimos no fundo de um café uma triste harpa gemendo sambas. Creia que me faz pena, são como pedaços de puro classicismo espesinhados pela multidão ignara. A harpa que David tangia! a harpa que foi o kinnor levitico; a harpa que vem embalando por essas idades remotas os sentimentos e as paixões, desde a ira de Saul até ás tristezas de Ossian, é isto hoje: um chamariz de bodega, que os dedos grossos de um maltrapilho ferem, não docemente, não enamoradamente, com os olhos no céu como Wolfram, mas abjecta e indignamente com um pires ao lado, pensando na colheita e indifferente á corda que estala, ao compasso que se precipita!

Dá-se o mesmo com os sinos. Não ha mais sineiros... isso foi para o tempo das cathedraes, quando o Dies irae era cantado por populações de crentes. Isso foi para o tempo em que se ia á Roma pedir misericordia cantando por todo o caminho louvores ao Deus Vivo, acordando aldeias ao som dos gloriosos choraes santissimos. Isso foi para o tempo em que se acreditava em Deus; hoje não... não ha mais nada—a civilisação vai estabelecendo mecanismo para tudo e a philosophia abafa com uma analyse o que era mysterio, pondo um principio onde havia um dogma, pondo a razão a patrulhar o sentimento para que não aconteça perder-se de novo a humanidade em extases.

Para que sineiros, se temos o carrilhão, que é o piano das torres? Hoje os poucos sineiros que restam são bimbalhadores, moleques apanhados no meio da rua e içados ao campanario por cinco tostões para soar a aria pastoral de reunir ovelhas. Ahi tem o amigo o que nos resta. Eu ainda hei de ver o orgão em saráus, e é justo, porque as bandas militares já invadiram os córos ecclesiasticos. Não temos mais nada, mais nada. A civilisação vai extinguindo tudo. Espero ler ainda nos jornaes que um sujeito qualquer pediu privilegio para illuminar as igrejas a luz electrica ou para fazer santos mecanicos: um Christo que diga do alto da cruz, deixando pender a cabeça meiga: Consummatum est! e em verdade estará tudo consummado. Estacou e olhando em frente disse sorrindo:

—Olhe, ahi vem o commendador.

Era meu tio, com effeito, que vinha dando com os braços e a sacudir a cabeça.