O mundo é dos epicuristas, disse o doutor, ao fim do jantar, trincando uma amendoa para melhor saborear o kirsch. A vida psychologica tem a sua preoccupação: o ideal; a vida physiologica tem a sua avidez: a fome. O ideal é a ancia pelo absoluto—fome insaciavel, por isso os gastronomos são mais felizes do que os poetas.

Meu tio, affectando conhecimentos, deu com a cabeça meio toldada, em signal de affirmação.

—Eu comprehendo a sumptuosa antiguidade com os seus banquetes colossaes em que eram servidas rezes inteiras e grandes javalis com os colmilhos vinham ornar o centro da mesa illuminada a candelabros de ouro. Esses homens que nós outros, em assomos pueris de vaidade, chamamos barbaros, conheciam e praticavam com mais requinte a sciencia delicada do gozo fino. Nós hoje comemos para manter em equilibrio as funcções da vida, raramente sentimos prazer, tratamos de encher o vacuo materialmente, azafamadamente. As nossas refeições não têm solemnidade, não têm apparato, são feitas, como todos os outros actos da vida material, com tédio, com tristeza, funebremente.

Ah! os antepassados magnificos!... Para elles a mesa era um altar onde se celebrava, com dignidade e volupia, o rito do estomago. Comprehendo o orgulho de Lucullo e as extravagancias excentricas de Apicius mandando apparelhar um navio para buscar ostras nas costas africanas. O triclinio era o aediculo do supremo gosto, o ádito do regalo. A civilisação rudimentar desses tempos era dictada pela esthetica. A propria politica, sempre avessa aos retoques esmerilhados da Arte, tinha a sua feição sympathica, tinha o seu cerimonial, exigindo para a primeira ala de representação a velhice sensorial e grave dos senadores, tão augustos na magestade impassivel da ancianidade, tão veneraveis na hieratica e silenciosa attitude de pais da patria que os barbaros da Gallia recuaram atemorisados, vendo-os immoveis e alvadios, sentados nas curúes do Capitolio. A cozinha tinha a sua esthetica especial. O cozinheiro romano era um artista. Para merecer os applausos de um patricio não era bastante saber temperar o môlho ou córar o peixe, era necessario conhecer o segredo de manter, para que não se evolasse, o perfume da vianda ou do pescado e mais ainda, commendador, era indispensavel saber vestir os pratos. Todas as peças tinham a sua toilette caracteristica, variando de tempos a tempos, conforme os caprichos da moda ou a imaginação do chefe das cozinhas. Uma ave exotica trazida, entre os despojos de uma conquista, de remotas paragens da Asia, era servida com a propria plumagem para que, antes da satisfação do paladar, a vista se regalasse; um cabrito montez vinha do forno entre folhagens frescas e verdoengas; havia pratos perfumados, outros que primavam pelo luxo maravilhoso e vario da verdura ornamental. Entre nós esse luxo, conservado por alguns retrogrados, não vai além das espetadas de rosas e de limões no costado dos bacoros de forno, as azeitonas que vão morar nas orbitas vasias e o classico ovo cozido cravado na dentuça. É verdade que os francezes pretendem resuscitar esse fausto elegante, mas como, commendador? montando gateaux de gelatina diaphana, refolhando massas, facetando tortas de foie gras... Mas isso é infimo. Sabe, meu amigo, tenho uma nostalgia estranha—a nostalgia do passado. Quanto eu daria para ser commensal de um chefe barbaro, mesmo um bruto, como o huno que andou a murchar a herva dos campos com as patas do seu cavallo da steppe...! Quanto eu daria para estar no acampamento, depois da batalha, á hora do rancho, para ver cahirem ao peso das clavas, ainda molhadas de sangue inimigo, as rezes pacientes que vinham acompanhando o exercito; e com que delirio eu cercaria as fogueiras colossaes em que ellas fossem lançadas! Quanto eu daria, commendador! Trinchar um boi! Cravar-lhe no ventre uma faca, grande como uma espada de guerra e comer no concavo de um escudo! Estou enfarado da mesquinharia subtil do vol-au-vent. Um bom pedaço de carne sangrenta a rechinar na ponta de uma lança, hein, commendador?

—Não temos estomago para taes coisas, doutor.

—Isto sei eu. A humanidade vai degenerando miseravelmente. Não é sómente á mesa que ella confessa o seu abastardamento—é em tudo. Veja a Arte de hoje... Quem ha por ahi que ouse tentar um poema epico? Ninguem! A poesia moderna é effeminada e languida—vai pelas minuciosidades porque lhe falta a suprema força victoriosa dos antigos vates que punham num canto de epopéa exercitos de homens e legiões de deuses, todo o furor ardido das pelejas e toda a sensualidade: os troantes armistrondos das catapultas e as doces palavras meigas dos namorados.

Vêde na Iliada os contrastes—Achilles e Agamenão invectivando-se, Diomedes rompendo as hostes troyanas com a sua lança formidavel, Thersyto giboso, a injuriar e a rir como uma satyra errante; Ulysses, a enredar traças, os deuses esvoaçando, uns pelos gregos, outros pelos priamides e, mais que tudo, esse episodio de um tão original e inaudito sensualismo: Paris salvo da lança aguda e bruta de Meneláu por Aphrodite que o retira do campo de duello, levando-o aconchegado ao seio ardente para dar-lhe repouso nos braços claros de Helena. Isto sim! isto é poesia! Hoje a preoccupação do poeta é o rhythmo, a sonoridade. São os discipulos de Apelles, commendador, são os discipulos de Apelles: fazem-na rica por absoluta impossibilidade de a fazerem bella. Os grandes deslocaram a montanha e a geração de hoje, anemica e enfezada, anda a respigar destroços para brunir bibelots que, ao mais leve contacto, quebram-se e desapparecem. Commendador, nós, os contemporaneos, polidos por dezenove seculos de civilisação, não valemos os errantes que sahiram dos valles acceitosos da India cantando, ao sol, pelas margens das aguas claras, os doces versos mysticos dos aryas. Virou o resto do licor que havia no calice e continuou no silencio attencioso:

—Á nossa litteratura falta o caracter de originalidade. Não é propriamente uma litteratura nacional porque, por infelicidade, ninguem se preoccupa com a terra. Os olhos dos nossos poetas vêem as constellações de outros céus, as aguas de outros rios, a verdura de outras selvas. Quando trazem para o descante uma mulher, de preferencia rustica, porque a Poesia, por um resto de bucolismo, só comprehende o amor fiel na deveza campestre, vestem-a á moda da aldeia européa, como uma pastora de Alsacia, como uma montezina dos Alpes, porque a Musa indigena não se atreve a apresentar na estrophe a sertaneja patricia, mais linda do que a Amaryllida das eglogas de Virgilio, mais casta, se é possível, do que Miranda ou do que Agnés. Se é um homem, desce das montanhas frias da Suissa tocando a ranz das vaccas dos companheiros de Winkelried. A paizagem é inverosimil, as aves que nella desferem são todas exoticas e muitas vezes até encontram-se no fundo de um parque, á luz da lua de maio, o rouxinol que canta e o cormoran que sonha. O cormoran... ora, francamente! A causa de tal aberração não é a ausencia do ideal plastico, porque ahi temos a natureza sempre nova e cheia de imprevistos; não é tambem a ausencia do ideal poetico porque, a meu ver, não ha paizagem mais suggestiva do que a nossa, cheia ainda do rumor da vida priméva, selvas, valles e montes, onde a lenda põe um mysterio em cada talisca, uma yara em cada regato, uma balada em todas as corollas, uma pastoral em todos os valles, um idyllio de amor em toda gruta, ardencia nos corações e inspiração nas almas. A causa é outra—é a difficuldade, porque é incomparavelmente mais difficil descrever a verdade do que colorir fantasias e sobretudo porque o nosso genio artistico é um producto immigrante: trabalha em nosso espirito como um colono labora nos campos e podemos dizer que as messes do sólo e da intelligencia nesta terra pauperrima são devidas ao elemento adventicio. Basta uma simples analyse da vida litteraria. Veja o commendador—somos ainda um povo em formação, começamos a encarar a vida e, na idade em que a Grecia foi lyrica, na idade juvenil em que todos os homens trataram de compôr poemas de religião e de esperança para abrigo da alma, nós desesperamos, somos pessimistas... Por convicção? por soffrimento? absolutamente não, por imitação apenas. Praguejamos no berço e pedimos a morte, o Nirvana. Começamos a ler pelo poema de Job. Mostre-me o periodo romantico, que é, por assim dizer, a adolescencia da Arte, na sua segunda phase, depois do renascimento? não tivemos. Saltámos para o naturalismo, que é a analyse, a rabugice caduca da litteratura e já vamos caminhando para a cachexia do decadismo, arrastados, inconscientemente, pelo habito inveterado da irresponsabilidade. Vamos no tropel dos allucinados escabujar na charogne, profanar tumulos para evocar procissões macabras, depravando o coração, depravando a benção. Peladan institue o erotismo, os eroticos emergem. Huysmans entra pela Idade-Média folheando as chronicas poentes dos archivos, apparecem aqui os satanicos; o mahatma apregôa as excellencias do budhismo, toda gente é budhista, como foi hypnotista na phase mais irritante das experiencias de Charcot, como foi cumberlandista quando aqui esteve Pedro Vals.

Somos um povo incaracteristico; defeito de origem—não tivemos lutas, não conseguimos formar um periodo historico, habituámo-nos a receber o que nos davam, dahi a passividade desidiosa do nosso temperamento. Nossa alma varia de instante a instante, é por isso que somos tão faceis de adaptação. Forçaram o nosso altar, deixaram-nos sem crença e sem Deus, aluiram todo o passado meigo das tradições christans, que foram o conforto dos nossos pais e o incentivo que nos trouxe pelo caminho da Moral, abateram a cruz e mostraram á Virgem a Via Dolorosa para que ella partisse, e que fizemos nós, os christãos? assistimos impassiveis á hegira, vimos sahir dos altares os santos venerados pelas nossas mãis e sorrimos. Chamam a isso evolução... é possivel—eu chamo-lhe indifferença. E é assim em tudo. Em politica dizem que fazemos revoluções sem sangue. Ora, commendador... francamente, chega a ser ridiculo!