—Mas é a verdade, doutor.

—Uma triste verdade. Para mim a politica do brasileiro não vai além da urna. Dêem-lhe todas as fórmas de governo com a urna e elle estará contente. E essa dedicação ao vaso do suffragio, só comparavel á dos hebreus pela arca, não significa a confiança que o povo deposita no voto, porque toda a gente sabe que o voto, entre nós, é uma palavra. Mas a eleição é uma tradição de motim, por isso é que ella perdura; tanto é verdade que tenho certeza de que o Brasil politico cessará de existir no dia em que morrer o ultimo cabalista. Outro facto ainda, que attesta eloquentemente a nossa tendencia imitativa—é a mania que temos da applicação de meios administrativos, economicos e ainda politicos usados em casos normaes em outros paizes de condições bem differentes das nossas, de systema de organisação diverso, á anomalia da situação que atravessamos. É querer curar uma febre eruptiva com um sedativo que fez cessar a cephaléa do vizinho. Ridiculo, commendador, ridiculo e triste. E vertendo mais algumas gottas de kirsch:

—Que me diz o senhor da moda? a moda por exemplo, esse supplicio imposto á mulher brasileira pela elegancia parisiense?

—Eu acho-a divina... Gosto immenso da variedade, affirmou meu tio.

—Tambem eu. Mas refiro-me aos disparates da mania vestiosa. Quando o inverno inteiriça Paris, nós aqui, nesta fornalha dos tropicos, desfazemo-nos em suor, estalamos, e as nossas mulheres, que se vestem pelos moldes da Saison e do Coquet, embrulham-se em pelles, revestem-se de arminhos, trazem pesadas cachemiras e capas com que um groenlandez zombaria do mais duro inverno, na sua toca de neve. E nós outros apertamo-nos em cheviots felpudos, torrados, suando, simplesmente porque seria ridiculo para a senhora apresentar-se na calçada da rua do Ouvidor com uma toilette clara, de um panno fresco e leve e um simples chapéu de palha cercado de flores, e nós seriamos corridos a apupo se ousassemos affrontar o povo com um terno de linho e um chapéu panamá. Ha de convir, commendador, é ridiculo, é soberanamente ridiculo!

Gravemente, com a repercussão profunda de um sino longinquo, o veneravel relogio interrompeu a facundia do doutor soando as dez horas.

—Dez horas! exclamou elle sacando do bolso o seu chronometro. Perdôe-me, commendador, mas não acredito nas palavras da pendula domestica—e baixou os olhos para consultar: É estranho! dois relogios de accordo: dez horas justas! E, pondo-se de pé, a passar as mãos pelas pernas para alisar as calças: Vou deixal-os, disse.

—Ainda é cedo, doutor. Vamos tomar um punch de champagne.

—Oh! Acha então que tenho bebido pouco? Mas meu tio já havia acenado ao criado indicando um vaso bojudo, de crystal ceruleo, a cratéra, como lhe chamara o doutor, descobrindo-o entre os pesados jarrões da China, carregados de rosas.

—Dê treguas ao theatro por uma noite, doutor.