—Treguas! Mas eu não faço outra coisa. Ha mais de quatro mezes que não ponho os pés em theatro. Desde que d’aqui partiu a companhia lyrica, a não ser um ou outro concerto, uma ou outra soirée, passo as noites a ler ou a jogar o pocker. Oh! o theatro! exclamou com um risinho, passeiando ao longo da sala.
—Não gosta? indaguei.
—Adoro! mas o theatro, meu amigo, o theatro... não isto que por aqui ha com esse nome. Porque, afinal, penso eu, Arte não é a chufa banal que faz estourar a braguilha, nem a nudez de maillots que aguça o apetite erotico. O fim da Arte é mais nobre do que o da chalaça. Não foi com auxilio de rondós obscenos que Sophocles foi coroado vinte e tantas vezes. Shakespeare não teve necessidade de sumptuosas scenographias para vencer em Blackfriars—a lua era feita por um homem que atravessava a scena com uma lanterna. Molière não mantinha a seu serviço córos femininos convenientemente cevados para embasbacarem a volupia. Ah! meu amigo, as mulheres que iam ouvir Eschylo abortariam de novo visitando os nossos theatros... mas abortariam de tanto rir, as pobres mulheres, de tanto rir! E sentando-se: Sinceramente, vale a pena emparedar-se um homem entre dois desconhecidos em uma platéa asphyxiante para ouvir cantarolas e admirar meneios sensuaes de alméas sarapintadas? Vale a pena deixar-se o canto do gabinete e a companhia de um bom livro para ir ouvir as imprecações de um fidalgo furibundo, que vem á scena, com uma grande capa, alongando as pernas, evocar os manes dos avós e reconhecer um filho? Em geral esse homem, que durante cinco longos actos estropêa inimigos, é de tão perverso instincto que nem a syntaxe consegue, na maioria das vezes, escapar á sua furia. Que é que nos offerecem os theatros? o vaudeville que nos vem trazer, desnaturado pela traducção, o espirito de Paris e o dramalhão pretencioso e bufo, onde ha invariavelmente a luta das paixões—o filho reconhecido ou... outro disparate qualquer. De Arte nacional, que temos? absolutamente nada.
—De quem a culpa? dos poetas, doutor, dos poetas que não trabalham.
—Perdão; nem dos poetas nem dos emprezarios, commendador—a culpa é da Fatalidade, falo agora como Seneca, disse a rir, a culpa é da Fatalidade. Nisard, se bem me lembro, diz que Roma não teve drama porque não teve povo, o verdadeiro povo, porque o drama é a obra litteraria mais indigena e mais original de um paiz—não póde ser feita sem o concurso directo da massa popular, porque é ella que a consagra no theatro. E para que exista o drama é necessario que existam factos, que haja uma historia, subsidio que, infelizmente, não possuimos. Demais, o nosso povo, na sua collectiva densidade, é uma massa heterogenea, na qual o elemento adventicio faz desapparecer o elemento autochtone, absorvendo-o como uma cellula mais forte absorve a mais fraca. Somos victimas de uma conquista organica—talvez não me exprima bem, mas a phrase parece-me exacta e perfeita. Os factores que nos parecem revigorar debilitam-nos, tirando-nos toda a autonomia e repulsando-nos lentamente... Somos nós os estrangeiros na patria. Essa massa forasteira é que impõe o theatro, é que concorre ás casas de espectaculo para rever os seus costumes, para recordar trechos das suas primitivas glorias.
Vêde os dramas—ou são portugueses, para o elemento que é, por assim dizer, a grande força activa do paiz, ou traduzidos do francês e agradam pela universalidade do assumpto, porque são as paixões modernas que existem em toda a parte; ou as operetas que são a nota viva e saltitante, que acarretam a nudez, o saracoteio, a bambochata e acendem a sensualidade... do Brasil nada. As poucas tentativas fallecem porque quem as podia levantar esquece-as e a razão é simples, commendador: é que nestes dramas não ha um fundo que impressione a collectividade: o povo, que é a patria na sua mais completa manifestação. É que o drama no Brasil não é fundado em uma these nacional, em um caso historico desses que exprimem uma gloria commum e que são a recordação de um momento ou de um facto. Não temos um heroe que encha com o seu prestigio todo o corpo de uma tragedia. E d’onde viemos nós? que epopéas demarcam a nossa victoria inicial? que altares relembram a religião primitiva? em que meandro ficam os tumulos dos que lutaram pela nossa liberdade e pela nossa crença? ha algum campo semeado de ossos do bravos que tivessem sahido em defesa da patria? não ha nada... não conhecemos a nossa origem, somos um povo do acaso com tres periodos de servidão—a servidão de colonia, a servidão do eito e a servidão do espirito.
Só póde ter theatro um povo livre. Como havemos de rir se somos por temperamento tristes e melancolicos? E nem chorar podemos. Os antigos choravam pelos seus heroes, eram lagrimas que recordavam glorias épicas, e nós havemos de chorar! porque?... de que?... de vergonha? mas para isso ainda é preciso que appareça um audaz que escreva o drama dos pusillanimes.
Não ha assumpto, commendador, não póde haver poetas. Ha um povo promiscuo, é para esse povo que os emprezarios trabalham, porque o brasileiro, como o romano da decadencia, contenta-se com os ursos sabios e com os saltimbancos.
O criado, que chegava com a cratéra, poz remate á imprecação patriotica, e meu tio, servindo uma taça, passou-a delicadamente ao doutor exclamando:
—Parece estar divino!