Tocámos as taças e sorvemos demoradamente o punch que, em verdade, estava delicioso, porque o criado, perito em segredos de buvette, perfumara o champagne com alguma coisa que rescendia como a baunilha. Por fim, pousando a taça, interrompi o silencio com uma objecção subtil, não tanto para refutar os conselhos do doutor, como principalmente para arrancal-o á mudez em que se reservara, bambaleando a perna, a tamborilar com os dedos no bojo da cratéra.

—Doutor se, como affirma, a causa da miseria litteraria em que jazemos vem da ausencia absoluta de factos, da esterilidade historica, somos um povo fadado ao silencio e á immobilidade: nem Arte escripta, nem Arte cinzelada. Jámais teremos a consolação suprema de rasgar um horizonte para que nelle possa refulgir um vulto de marmore ou para que nelle fique, eterna como a Odysséa, a constellação de um poema patrio.

—É um engano. Isso que o meu amigo préga é o desalento, doutrina do desespero, propria das raças nullas. Somos um povo que começa, não temos um só periodo, um só estadio ainda, mas isso não quer dizer que sejamos um povo morto. Ainda não começámos a viver, esta é a verdade; ainda não começámos a viver. Temos elementos para vir a ser um povo artistico como foram os gregos: o meio, o caracter, o sentimento e até a providencia dos mares que nos distanciam do resto do mundo, isolando-nos no equador como para obrigar-nos a agir exclusivamente por influxo directo da zona que creia, ao mesmo tempo, a temperatura physica e a temperatura moral. O brasileiro não é um povo rudimentar sob o ponto de vista psychologico, não é. E, a proposito, permitta-me que faça aqui, muito á puridade, a minha profissão de fé. Tenho uma extravagante doutrina sobre a psychologia, que, em verdade, já me tem valido apupos. Retrahi-me e hoje apenas deixo presentir alguma coisa, assim em intimidade como estamos, por que não quero que vejam mais em minhas palavras pretenções a dogmas: são ligeiras idéas que desapparecem com a palestra.

—Fale, doutor! Pedi com interesse.

—Ah! meu caro, sou um «solitario». Vai achar ridiculas as minhas palavras... Em todo caso...

Tomou uma attitude severa e falou.

—Creio profunda e convencidamente nas phases de dynamisação psychica—a alma é um fluido perenne e immortal, activo e autonomo, que circula mysteriosamente pousando de corpo em corpo, como a abelha circula, pousando de flor em flor. Como uma suga o mel das flores, a outra absorve o mel da intelligencia, que é um producto complexo de funcções do cerebro isolado: a imaginação; cerebro-cardiacas: o sentimento; do instincto: a avidez; e da vontade: a ambição que é a tenacidade do desejo. Essas funcções só se manifestam na materia com o contacto da Alma, como as forças magneticas apenas se desenvolvem com a incidencia dos dois polos extremos. De longe em longe, colhendo em differentes vidas qualidades de um e qualidades do outro, a Alma encerra-se em um ser, immensamente farta, immensamente cheia, produzindo os genios, que são como grandes colmeias que reunem toda a essencia de multiplas variedades, todo o mel colhido atravéz de multiplas e variadas metempsychoses. É uma doutrina de louco, decididamente, e eu sou o primeiro a convir nisso, mas actualmente todas as doutrinas têm um fundo de insania, não é muito que surja uma inteira e completamente louca. Mas creia o amigo que é só assim que consigo comprehender e explicar o apparecimento dos homens cyclicos—Homero, que é a synthese de todo o drama épico desde o periodo pelasgico; Hesiodo, que é o mytho, a theogonia; Eschylo e Sophocles, que são a tragedia; Dante, que é o astro neutro posto no céu sombrio da Idade-Média, terrivel e tragico como Saturno, alumiando entretanto a manhan triumphal do renascimento; Shakespeare, que é o ponto de encontro das paixões humanas. Homens-collectivos que apparecem em uma éra determinada quando ha um espirito perfeito. Commendador, o futuro não contará a idade do homem pela data do seu nascimento, mas pelo numero de éras que tiver atravessado o espirito que o escolher e a lenda de Mathusalem será ridicula, porque haverá homens dez, vinte vezes millenares. Não é hoje uma verdade scientifica o atavismo? A humanidade é uma redundancia: evolução é um synonimo de substituição—progresso quer dizer: aperfeiçoamento. O povo tem uma expressão que define admiravelmente o principio cerebrino da minha psychologia: «As crianças de hoje nascem velhas.» É uma verdade: a vida repete-se. Demais, sendo a Alma uma essencia perfeita, virgem, original e fecunda e sendo ella a força concurrente para a vida do ser, era justo que nós outros fossemos produzindo constantemente idéas novas, novos principios, entretanto ahi está, de longo tempo, o aphorismo do Ecclesiaste como uma verdade: «Nil novum sub sole.» Razão formidavel em favor da minha escola exclusiva—não póde produzir actos novos o que é de natureza antiga: repete, varia ampliando ou aperfeiçoando. Sendo uma a causa, os effeitos serão invariavelmente os mesmos, mais ou menos aperfeiçoados pela combinação dualista: materia, espirito, impulso e meditação, acção e reacção.

—O doutor é spirita? indagou meu tio com um leve tremor na voz.

—Não, commendador... Spirita, eu! Sorriu com desdem, tomou um charuto da caixa, acendeu-o e continuou reclinado, com as pernas estendidas:

—Mas, dizia eu, o brasileiro não é um povo rudimentar. Sem recorrer ás idéas expostas tenho uma observação que, posto não seja muito original, presta-se magnificamente. A nostalgia, que é o avesso da esperança, é a saudade na sua expressão mais nobre, porque é a saudade do absoluto, quasi que posso dizer assim, saudade da terra, do céu, dos rios, da selva, do homem, do ar, do rumor, de tudo que se amou, de tudo que se viu e sentiu além. Ora, commendador, para que exista a nostalgia, que é um effeito, é necessario que tenha existido uma causa.