—Forçosamente, corroborou meu tio.
—E qual é ella? Entretanto o brasileiro é nostalgico. Nostalgico de que? porque? pergunto. Que vida no Aquem viveu elle para que tenha saudade tão intensa? que outros astros o alumiaram? que outras selvas trilhou senão as do seu paiz? Meu tio deu de hombros. E o doutor, num impeto, pondo-se de pé como inspirado, disse:
—Tenho, para mim, que Colombo conhecia a America antes de a ter visto—conhecia-a inconscientemente, porque nella vivera a Alma que o animava. A fé que elle tinha nos mares immensos era certeza, e essa doce melancolia que o acabrunhava quando avistava o oceano, póde ser que fosse um resultado de desanimo, porque era forçado a sopitar a sua paixão aventureira, mas no fundo, penso eu, era nostalgia da terra que era Ideal para a sua imaginação, que era verdade para a sua Alma.
Meu tio escutava boquiaberto, com ligeiros fremitos, como se o doutor lhe estivesse revelando coisas de um mysterio absconso; arfava cançado, como se as phrases, que jorravam copiosas num catadupejar sonoro, dos labios facundos desse erudito moço, não lhe dessem tempo para respirar. A cabeça approvava machinalmente e os olhos, que traduziam profundo abalo de crenças e de convicções, abriam-se, cerravam-se, parecendo, ás vezes, querer saltar das orbitas onde rolavam arregaladamente, desatinados e aturdidos.
—Realmente, doutor, disse cabeceando com enthusiasmo, realmente... e tomou a taça de punch engulindo gulosamente um sorvo. A sua philosophia, deixe lá, tem alguma coisa de verdade. Commigo tem-se dado o facto que citou. Ha occasiões em que parece que me recordo de uma outra existencia.
—E ha de ter reconstituido pequenos episodios, commendador.
—Pois não... Pois não...
—E os casos de sympathia e de antipathia? bem querer a alguem que se vê pela primeira vez, detestar uma creatura que se encontra, ao acaso da travessia e que nos vem receber affavel e meigamente, toda bondade e blandicias? Que é isso senão uma prova evidente e cabal de que houve relações entre os espiritos encerrados em nosso corpo e no corpo da pessoa que se nos depara—relações de amor e de amizade, de despeito ou de odio, no impenetravel e nebuloso Aquem? Causas estranhas, phenomenos do incognoscivel.
Luciano, o ironico, fartou-se de rir da doutrina de Pythagoras, mas deixem lá... deixem lá. Sacudiu um gesto como para afugentar idéas e disse: Mas deixemos divagações que não têm fundamento senão em conjecturas. O Mysterio seduz, mas o Mysterio é a Sphinge. Deixemos o caminho de Thebas, deixemos o enigma, vamos pelo terreno firme. E tocando-me delicadamente no hombro: Voltemos ao nosso thema. Dizia eu que possuimos elementos para vir a ser um povo artista como os gregos. É uma verdade, posto que desmentida diariamente pela improductividade e pela inercia esteril. Porque? porque não temos educação de ordem alguma. Physicamente, somos um povo hybrido, sem raça discriminada, sem antecedentes firmes; nascemos da amalgama, somos os epigonos de Babel. Essa miseria de origem reflecte-se no organismo. Dizem que o brasileiro é preguiçoso, languido e contemplativo. Ha quem lance esses vicios congenitos á conta do clima, é verdade, em parte, mas esquecem inteiramente a etiologia—que é a origem.
O sangue que circula em nossas veias é uma mistura heterogenea de globulos que se destroem reciprocamente para que um sobrepuje e vença: o globulo africano dá-nos o banzo; o que herdámos dos navegadores dá-nos a actividade, a tenacidade arguta e trefega de investigação e o egoismo, que é um euphemismo de avareza; e, finalmente, o globulo virginal do sangue indigena. Em uns vence a saudade—é a vida do coração, são os sentimentaes; em outros supera o germen europeu e são os activos: homens de sciencia e de commercio, bem raros, infelizmente; nos ultimos, a força indigena prevalece e são os bravos e os sonhadores. Ha, entretanto, casos excepcionaes de fusão—a luta constante dos tres globulos: são os desorientados, homens indecisos, dubios, de existencia incerta, de vontade vária, sem idéa firme, sem iniciativa. Sobram-nos, por desgraça, esses casos de excepção—a maioria do nosso povo é constituida de anomalias. Não nos nacionalisaremos emquanto o tempo não fizer a differenciação necessaria. Além disso o clima torrido amollece, entibia, tornando o povo languido e nostalgico. Ha, todavia, um meio de combater essa teratologia organica—é a educação. Educação physica, o sabio artificio de que lança mão a Humanidade para aperfeiçoar a obra natural, enrijando os musculos, reforçando os ossos e concorrendo para vitalisar a intelligencia, garantindo a saude e o bom humor. Educação moral, que é a confortavel armadura do espirito que o premune e defende contra as ciladas constantes da vida de sociedade, porquanto fornece ao homem os conhecimentos praticos do bem e do util, creia o amor altruista estabelecendo a unidade entre os seres—um por todos, todos por um—formúla noções geraes sobre o destino na vida, mostrando as relações que devem existir entre os individuos e os fins de todos para o bem da communidade; estabelece as bases irreductiveis da familia e da sociedade dando a mais o vasto appendice da crença, que é a caixa de Pandora de onde a sciencia póde arrancar todos os dogmas, porque ha de sempre ficar no fundo, immarcessivel e consoladora, a Esperança.