A educação moral, para mim, deve comprehender a educação civica—o culto dos maiores e o respeito pelos factos da tradição que levam o homem ao absoluto amor, o amor da Patria. Não temos. Nas escolas desconhecem de todo essa hygiene de espirito. Educação intellectual... O nosso povo, na sua maioria, é ignorante. Ha uma pequena parte de selecção que lê, outra parte que ouve e outra que não lê, nem ouve: o patricio, o plebeu e o servus, eis as tres castas. A primeira impõe, a segunda transmitte, a terceira executa—d’ahi a inconsciencia de todas as nossas manifestações collectivas. O povo, propriamente dito, é uma massa rude que serve de instrumento aos privilegiados. Essa casta superior, que podia impôr as letras e as Artes, é indifferente, porque não se educa na patria, educa-se no estrangeiro ou nas suas doutrinas, é lida em livros de fóra, visita museus na Europa, fala sobre exotismo e sente e pensa atravéz do sentimento e do pensamento dos seus educadores—são automatos do Occidente; d’ahi a impossibilidade de dilatação litteraria e artistica.

Se se cuidasse da educação da Patria com elementos proprios, tratando-se de formar espiritos nacionaes, genuinamente nacionaes, dentro em breve teriamos Arte, porque o povo, ligando-se á terra pelo espirito, sentiria necessidade de conhecer-lhe os segredos e viria disso, talvez, a noção de patriotismo que ainda não existe entre nós. Antes de fazer Arte tratemos de fazer povo, eis o principio. Somos um grande coração... já alguem disse. Oh! a caridade proverbial do brasileiro, a sua hospitalidade só comparavel á dos arabes... Somos um grande coração, mas sem systole: recebemos a vida no que nos transmittem, mas não transmittimos absolutamente nada. Somos um coração sem systole, empanturrado de sangue como um odre, mas na analyse de um coagulo das nossas arterias um sabio paciente descobriria atomos de todo o sangue universal. Germens de todas as raças do mundo circulam dentro em nós e é justamente por isso que não somos nada, porque não temos identidade. Só ha um meio de tirar dessa miscellanea um povo—é educal-o, mas educal-o na escola austera do amor da Patria de modo que elle se converta a nacional, vivendo para sua terra, que bem merece que por ella vivam. Alma antiga em corpo antigo, eis o brasileiro—um povo macrobio no berço. Poz-se de pé d’um impeto e voltou-se para o relogio:

—Como! onze horas! É estranho! Sacudiu-se todo, deu um puxão á sobrecasaca e, accendendo novo charuto: Até amanhan, commendador...

—Já?! disse meu tio, com a voz cançada, suffocando um bocejo.

—É muito tarde. E rindo: e o senhor está a cahir de somno. Até amanhan! Até amanhan! disse interrompendo meu tio, que ia provar que não estava absolutamente a cahir de somno.

O criado entregou-lhe a cartola e a bengala. Levantámo-nos para acompanhal-o. Á porta, despedindo-se, vedou-nos a passagem para que não apanhassemos o sereno da noite e, apertando-me valentemente a mão:

—Perdoe-me e não guarde resentimentos das minhas doutrinas—são inoffensivas. Rimos ambos e quando elle partiu ficámos a olhar e a vel-o seguir pelo jardim calado, alvissimo do luar, girando a bengala e cantarolando:

La gondola nera fuggiva...

De longe atirou-nos o ultimo adeus:

—Até amanhan...