—Boa noite, doutor! dissemos ambos. E meu tio ajuntou atravéz de um bocejo sonoro:
—Conversa bem, mas é meio doido... é meio doido...
E, arrastando os passos, foi cahir mollemente na cadeira abbacial das refeições e do primeiro somno.
IX
O dia amanheceu baço e humido. Chovera pela madrugada.
Meu tio, em candidos linhos, estirado num pliant de lona, com um jornal sobre os joelhos, olhava da varanda os rosaes ainda gottejantes. Saudando-me, interessou-se pela minha noite, indagando se não me assustara com os tremendos trovões da madrugada e, dizendo-lhe eu que nem os ouvira, lançou-me os olhos, admirado da valentia do meu somno de chumbo, affirmando—que o céu viera abaixo em raios e em agua. Sahimos ao jardim para ver os descalabros da tempestade nas roseiras e nas moutas de cravos e compungimo-nos, mais de uma vez, diante das esfolhadas de petalas ou á vista de um canteiro que a torrente da chuva escavacára. Mas já o jardineiro andava a recompor, pondo esteios, fincando espeques, ligando galhos, ajustando ramos, e meu tio, como se visitasse uma enfermaria de desastre, ia de arbusto em arbusto, sempre com uma phrase terna e cheia de condolencia, lastimando o botão que os ventos haviam arrancado ou a begonia pendida para a terra encharcada, quasi a morrer dos embates fataes da noite tempestuosa.
Almoçámos tristemente—repasto funebre de exequias, sem palestra, com poucos vinhos. Os canarios, como se participassem da agonia das rosas, estavam encolhidos nos poleiros, mudos. Sahimos logo depois do almoço, porque meu tio não queria demorar-se mais a olhar a devastação do seu jardim, mas como o Jeronymo lhe promettesse «arranjar tudo», recompoz a physionomia e, quando entrámos para a victoria, já elle levava o rosto transfigurado e dizia a rir «que as almondegas estavam coriaceas», cravando nos dentes um resto de palito.
Em caminho falámos do Dr. Gomes.
—A proposito, meu tio, de que vive elle?