—Tem uns predios, ganhou alguma coisa na praça á minha custa, accrescentou com superioridade. Deve possuir uns trezentos contos. Mas gasta muito, é um dissipador: o dinheiro foge-lhe das mãos como entrou.
—É solteiro?
—Solteiro. Vive com uma italiana bailarina, uma Denzi, Emilia Denzi. Bella mulher, boa voz, mas... E meu tio, num gesto eloquente, derreando a cabeça, entornou o polegar na guela e, com lastima, os olhos em branco: É uma pena!
—E elle?
—Tem theorias. Diz que é nevrose, que a culpa não é della, que aquillo é um mal hereditario e dá-lhe coisas a cheirar, e deita-a. É preciso vel-o. Já uma vez, lá em casa, foi um trabalho para conter a italiana. Entrou a beber e deu, a principio, para cantar ao piano, elle acompanhava-a tremulo, já desconfiado prevendo o desfecho. Cantou a Traviata e uma barcarola; mas, de repente, poz-se a achincalhar a musica e, sem mais, apanhou as saias e saltou para o meio da sala atirando as pernas ao ar num can-can furioso. Por fim tomou de uma peanha a mais linda estatueta que eu possuia, partiu-a e atirou-me os cacos á cara; elle, porém, com um heroismo generoso, poz-se á minha frente, recebendo no peito o que a furia me arrojara. É um perigo! Um perigo, mas mulher bella e de carnes.
Chegaramos ao largo, ao mesmo ponto em que, na vespera, haviamos estacionado, e meu tio impelliu-me para a rua, dizendo ao imperturbavel Edgar: Ás cinco!
Iamos caminhando em direcção á rua do Ouvidor quando meu tio, parando repentinamente, perguntou-me:
—Ó Anselmo, dize-me cá: tens dinheiro? Machinalmente levei a mão ao bolso, mas recolhi o gesto a tempo, respondendo, entre vexado e cubiçoso:
—Pouco, meu tio, creio que duzentos ao todo... tenho ainda umas compras a fazer: lan e talagarça para Marocas, uma Senhora de Lourdes para a velha e as obras do Casimiro para o Simão Carreira. Sem dizer palavra, meu tio sacou do bolso a enorme carteira empanturrada e tirou um macinho nitido, de notas largas, dobrou-o e deu-m’o sorrateiramente. Nem me preoccupei com a carteira, foi mesmo no bolso da calça que as guardei profundamente, acariciando-as.
—Precisas conhecer o Rio... tens ahi a chave de todos os mysterios. Acolhi com respeito a peroração sentenciosa do meu generoso parente, e do mais intimo de minha alma elevou-se, como num suspiro subtil e estremecido, toda a minha gratidão: Obrigado, meu tio. Elle, porém, ou porque não ouvisse, ou para affectar indifferença á dadiva, estendeu-me a mão liberal com estas palavras: Deixo-te aqui. Tenho ás 3 horas assembléa geral da Companhia Fomento Agricola. Não te vás perder, vê lá! Anda como quizeres, mas não saias da rua do Ouvidor e, ás cinco, no Paschoal. Sabes onde é?