—Pois não; sei.

—Vê lá!

—Vá descançado: Ás cinco horas no Paschoal.

Separámo-nos.

Fiquei algum tempo indeciso, sentindo-me mal na liberdade, receioso, timido, sem animo de atravessar sósinho a rua do Ouvidor. Parecia-me que toda aquella gente, que subia e descia, mirava-me achando-me desageitado e ridiculo, o ar tolo, os modos desalinhados. Meu terno tão perfeito, tres vezes provado e retocado por mestre Thomé Caminha, parecia-me largo e fofo, sem gosto, fazendo dobras nas costas, curto de mangas, curto de pernas, todo elle curto e largo, sem geito. Sentia-me mal e estive para correr ao alcance de meu tio, pedindo-lhe que me levasse á assembléa do Fomento, tal era o desanimo que de mim se apoderava ao ter de atravessar, sem companheiro, a rua que eu via diante dos olhos, atulhada de gente, apezar da ameaça sombria das nuvens que rolavam no céu, turgidas e tumidas de aguaceiros. Diante de uma vitrina lancei um rapido olhar de analyse e achei-me escorreito e liso, apenas o chapéu havia tombado para a esquerda; puxei-o e, estacando, a enrolar um cigarro, o olhar errante como se procurasse alguem, deixei-me estar algum tempo a invocar coragem para vencer a cobardia do meu espirito acanhado. Por fim atrevi os primeiros passos e fui caminhando vagarosamente, cauteloso, para não ir de encontro aos que vinham azafamados, indifferentes, abrindo caminho á força de hombros e cotovellos.

A minha idéa era o Paschoal. Ali, ao menos, sentado a uma das mesas, ninguem daria por mim e poderia ficar até ás cinco á espera de meu tio, livre daquelles olhos que me pareciam despir, livre daquelles sorrisos que pareciam criticar os meus gestos selvagens e o meu lento e medroso caminhar de rustico. Mas, subitamente, como se despertasse dentro em mim uma nova energia, senti-me desembaraçado e altivo. Parti, pisando forte, a olhar d’alto a gente; mas ao cabo de alguns passos, um grupo de senhoras garrulas colheu-me num encontro amigo, no enleio expansivo de uma intimidade affectuosa, o fiquei collado á parede a ouvir beijos chochos trocados com precipitação e risinhos, emquanto um pequeno, vestido á maruja, mettia-se pelas minhas pernas empurrado pelas amistosas damas.

Atroz menino! atrozes senhoras! Uf!

Esbaforido e suado consegui desentalar-me do aperto intimo, maldizendo as minhas patricias que andam pelas ruas, como as formigas pelos trilhos da roça, esbarrando os labios em beijinhos. Afastei-me da calçada para evitar nova collisão e segui lançando os olhos adiante na esperança de descobrir o doutor que, segundo a affirmação peremptoria do meu tio, devia andar pela rua do Ouvidor digerindo o almoço e commentando os nossos erros politicos e os ultimos livros de França. Infelizmente, porém, cheguei ao Paschoal sem ter sequer divisado a sua sombra e conjecturei que se deixara ficar em casa amarrotando as housses dos divans em longos espreguiçamentos de tedio, com os seus poetas, em solidão ou tendo a seu lado a italiana, em toilette tenue de cambraia e rendas, mexendo grogs de cognacs, com um romance de Tosti nos joelhos.

Um homem como o doutor não abandonaria o lar num dia como esse de spleen e de nevoa. Que viria fazer á rua senão chapinhar na lama e ouvir as queixas indignadas dos politicos, que presagiavam, com grande cópia de argumentos, um futuro tragico de assassinios e de roubos, de violencias e crimes barbaros? Que viria fazer á rua quando podia estar no tepido aconchego do seu «home» arrulhando nesse doce toscano, que foi o idioma dos amores, no tempo em que a humanidade, menos civilisada, amava? Não, meu tio errara na sua affirmação: o doutor não andava pela rua do Ouvidor, devia estar nas Laranjeiras, a reler poemas para distrahir a paixão bacchica da italiana iconoclasta, ou a traduzir os sabios conselhos de Martial sobre a felicidade, onde o poeta escreveu este hemistichio sobrio que, de per si, constitue um elemento de paz e de ventura: nox non ebria... talvez nunca experimentado pela bailarina.

Apezar de pensamentos taes, não me abandonava a esperança de o ver surgir de repente, muito correcto na sua toilette justa, espalhando em sorrisos o seu bom humor e a sua graça.