Da porta do Paschoal estive longo tempo a contemplar o meio corpo de um homem que ficara á esquina, parado. Via-lhe apenas um lado: meia aba do frack, uma perna, metade do chapéu. Tive impetos de partir para reconhecel-o; mas, evitando-me os passos em vão, o homem voltou-se—era um sujeito moreno, abaçanado, com grandes bochechas molles picadas de bexigas—um bigodinho ralo descia-lhe pelos cantos da boca em duas gotteiras. Cançado, resolvi entrar. Havia uma mesa junto á porta, encostada a uma das columnas. Tomei-a.

Pouca gente. Rapazes, o ar entediado, bebiam. O que eu vira no primeiro dia, lá estava abancado a ler a mesma tira, creio, a um pequenote de olhos espertos que bebia, sedentamente, a grandes goles, uma agua effervescente dando com a cabeça loura em signal de approvação. O da tira levantava gestos que deviam exprimir coisas de subido alcance ou guindava, com os dedos em feixe, tremulamente, numa ascensão olympica, a imagem ou a estrophe, e o outro, radiante, como um auditor romano dos que ouviam Estacio, sorria, acompanhando com um olhar ineffavel os dedos, que já iam pelo ar subindo, subindo sempre, á proporção que a voz se ia tornando cava e profunda com um rumor longinquo de trovões de estio.

Quando o caixeiro veiu ter commigo, ouvi distinctamente o ultimo ronco e logo em seguida a voz infantil e clara do auditorio.

—Bonito! Bonito! Delicioso, Mendes! Delicioso! e docemente, numa lisonja amavel, repetiu o verso final:

Neste cymbio de prata...

O resto do verso, que devia ser divino, perdeu-se no estouro de uma nova garrafa d’agua aberta para o pequeno enthusiastico e sedento. O da tira dobrou-a com indifferença e guardou-a no bolso interno do casaco atirando para cima da mesa uma nota.

Na mesa contigua uma virago de luto mastigava gulosamente com um triturar famelico de mandibulas, diante de um velhote casmurro, que meditava levando, de vez em vez, á boca, escondida por trás da barba curta e amarellada, o copo de cerveja. A mulher devorava atabalhoadamente e elle, taciturno, parecia muito longe d’ali, com os olhinhos fitos no vago, em algum sonho de saudade, talvez na imagem sempre viva de quem se fôra e por quem elle trazia a cartola enrolada em crepe e a mulher insaciavel o merinó de luto. O caixeiro acudiu ao meu appello. Encommendei um grog. E voltei o olhar para os dois rapazes. O da tira tomara uma attitude de abandono, as pernas cruzadas, cahido sobre a bengala, cujo castão perdia-se-lhe na axilla; o pequeno accendera um cigarro e baforava, farto.

Trouxeram-me o grog.

Um tlim-tlim ao lado attrahiu-me a attenção. O caixeiro acudiu num salto. O velhote, sempre triste, passou a mão por sobre os destroços, responsabilisando-se por tudo, e empinou-se para sacar o dinheiro do bolso. A virago chupava os dentes com estrepito endireitando a capota ao espelho. Levantaram-se os dois. O velho dava pelos hombros da mulher e, magrinho, engelhadinho, fazia dó vel-o humilhado pela abundancia daquella Eva formidavel, de seios enormes, que o arrastava soberanamente como a cauda do seu vestido arrastava os palitos do chão. Fazia dó ver aquelle homem diminuto e franzino ao lado daquella fartura—e foram-se, ella adiante chupando os dentes, elle seguindo-a, com o guarda-chuva debaixo do braço, contando as notas do troco.

Acompanhando com o olhar o pobre velho, que desapparecia no rasto da poderosa Cybele, passou-me pelo espirito este pensamento estranho: Esse homem apanha da mulher.