Quasi á porta alguem, debruçando-se amorosamente sobre o meu hombro, segredou-me palavras doces, mas tão intimas, tão leves, que me passaram, ficando-me apenas, no lobulo da orelha, o calor acariciante do sopro que as trouxera. O que pensei em um segundo!... Quantos sonhos idyllicos passaram pelo meu espirito!... Que vasta e interessante aventura imaginou minh’alma nesse tempo rapido!... «a mocinha de Italia a dar-me o seu endereço, ou outra linda mulher...» Mas uma idéa feriu-me violentamente—o conto do vigario. Levei a mão ao relogio e voltei-me rapidamente. Era um latagão de barba ruiva e oculos: tinha a cabeça núa, uma grande fronte tostada, com um calombo ao meio, purpureo e estriado. Curvou-se com a cartola nos joelhos, um sorriso affavel no grande rosto picado de bexigas, e balbuciou, com enternecimento, como se effectivamente dissesse coisas ternas:

—Quer o patrão um carro fechado?

Tive impetos de o repellir, mas lembrei-me de que, para chegar ao meu destino, era mais prudente confiar-me ás bestas de um cocheiro do que á providencia do acaso em horas tão adiantadas.

E, aqui na intimidade inviolavel deste canhenho, confesso que admirei o homem vigilante que sahira ao meu encontro com tanta affabilidade, offerecendo-se para conduzir-me á casa. Calculei que toda a gente devia estar enfronhada no morno leito, gozando a delicia incomparavel do somno, nessa noite fresca e de chuva. Além, nesse eremiterio onde repousa o meu umbigo, ás dez horas, a não ser em casa de Marianno Gomes, onde se cartêa impudentemente o lansquenet, com pequenos intervallos de maledicencia e gole, toda a povoação, beatamente ceiada e rezada, dorme. De longe em longe, uma luzinha treme, traçando no pó soalheiro dos caminhos uma risca luminosa—é algum jogador, que se recolhe despojado e tropego, ou o sanctissimo padre Coriolano, que anda a correr o aprisco, a ver se alguma ovelha bale, roída pelo arrependimento do peccado, que é uma chaga terrivel que a gente cura com as drogas da philosophia ou com a boa e sadia camponia, que, mais do que os santos, sabe levar os seus eleitos ao Paraiso, por um caminho bem differente desse que a igreja conspicua e austera manda que se trilhe—ninguem mais.

Ás dez horas o somno parece cahir do céu sobre todas as cabeças justas.

E não é só o homem que dorme no leito antigo, largo e raso, de columnas torcidas, com flores e folhagens classicas, forrado d’alvos lençóes, que trescalam como moutas de hervas de cheiro ou na palha secca e crepitante, entre os milhos, com o cão aos pés e os grillos cantando perto; é o gado forte e é a ovelha mansa, é a ave meiga, é a mesma arvore, é a mesma agua, é a mesma estrella, é o mesmo luar porque, se a agua murmura e se as folhas sussurram, bem se póde dizer que são vozes do sonho das coisas. Velam apenas o caboré piando no tronco secco ou cruzando os ermos e as feras bravas que descem para velar, ou a farandulagem que assalta gallinheiros ou outros sitios de maior recato e perigo.

Imaginem o meu espanto, a minha surpresa quando o cocheiro, fazendo uma zumbaia e rastejando um gesto para que eu passasse, deixou-me ver uma fila de carros molhados, reluzentes, e, em todas as boléas, sob guardas-chuva lustrosos, braços que acenavam para mim, num delirio, e gente, gente a valer, como eu jámais vira na villa onde passei o grosso da minha vida, nem mesmo nos dias de feira. Imaginem o pasmo que me tomou!

Deixei-me levar pelo cocheiro, que correu a abrir a portinhola, vindo buscar-me debaixo do seu guarda-chuva, amplo como uma tenda. Quando afundei nas almofadas atirando ao homem o numero da casa de meu tio, na praia do Russell, sahiu-me dos labios tremulos esta exclamação profana, mas que exprime admiravel e eloquentemente o assombro dos meus olhos, diante de tanto guarda-chuva, de tanta luz, sem falar no rumor que me ensurdecia:

—Com seiscentos diabos! isto é que é terra! E com força puxei a portinhola. O ruivo cacarejou ás bestas e rodámos.

No toldo a chuva torrencial rufava.