II
A casa de Serapião Ribas, meu tio, melancolica e discreta, sem vizinhos lateraes, porque a isola um florido jardim de rosas e, em frente, o mar espumeja rolando e chofrando por entre pedras negras, é um confortavel chalet suisso, de boa construcção—pedra e cal, com lambrequins e agulhas, pintado de verde. Penetra-se esse retiro, socegado e pudico, seguindo as sinuosidades de um caminho de saibro, onde os passos crepitam, por entre o perfume sensual das roseiras, que fazem ao meio um bosque ameno em torno de uma casinhola rustica, feita de troncos entrelaçados, com um tecto afunilado, de colmo, onde meu tio, á tarde, bebe o seu aperitivo, lendo os jornaes, com as pernas esticadas sobre o banco de pedra.
Dá accesso á varanda uma pequena escada de marmore—tres degráus, polidos e claros como pedras de um movel fino, porque a gente, antes de pisal-os, raspa as solas dos sapatos na lamina de um apparelho, que arranca tudo quanto se levar collado á palma do calçado. Além disso estira-se em cima, no limiar, um capacho de coco, cerdoso e duro, para completar o asseio. Raspado e brunido, o hospede atravessa os umbraes da sala nobre onde os passos afôfam-se sobre um tapete amplo, ainda carregado de lans e de pelles de feras que, d’olho acceso e guela escancarada, esparrimam-se ao peso dos moveis em inercia voluptuosa.
O interior, obscuro e abafado, cheira a verniz e a fardos novos. Entretanto o asseio accusa-se immediatamente pela disposição e pelo luzimento das molduras dos quadros, porque a mobilia, que deve ser faustosa, está fresca e claramente vestida de housses brancas. Despido só um tamborete de setim azul, com um bordado de ouro, representando um corvo marinho, pensativo, num pé só, com um peixe no bico.
Enriquecido de um dia para outro em transacções felizes, meu tio que, em moço, curtiu a mais faminta miseria, regala-se gozando pacatamente as delicias da fortuna. Aferrolhou mil e tantos contos em apolices, comprou varios predios, e, estirado agora, resfolga na sua voltaire ampla, esperando, com um sorriso, o amanhan e o depois, sem a dura preoccupação do fim do mez e do caderno das compras. Tem o pão e o tecto garantido podendo, de vez em quando, extraviar-se por um extraordinario de bombance, sem risco para os dias da sua velhice amparada e serena.
É solteiro, não porque deteste o casamento—aconselha-o a toda a gente como um meio honesto e digno de aperfeiçoar a especie e consolar o espirito. É solteiro porque, no seu entender, no «seu modo de ver» o casamento é uma loteria, e, infeliz como sempre foi nos kiosques, receia que a sorte o persiga até junto do pretor e do sacerdote. Vive com dois criados de serviço, mais um cozinheiro.
Recebeu-me na sua grande sala de jantar de carvalho, forrada de encerado inglez—um lugar de gosto pelos ornatos dos moveis carregados de corymbos e de cachos de frutas, entalhados nos espaldares das cadeiras, nos florões do enorme guarda-prata, dos bofétes e dos trinchadores de marmore escuro. Pratos raros pelas paredes, naturezas mortas, iguarias a oleo e faianças de Delft e de Caldas—lagostas, uma enfiada de perdizes, uma penca de frutas, e, venerando e respeitavel, entre o luzir da louça, um relogio escuro, monotono, moroso que, de vez em vez, range e profundamente bate uma pancada soturna.
Serapião, meu tio, nessa noite da minha inesperada apparição, vestia um radiante robe de chambre de seda. A calva, nua e polida, resplandecia ao fulgor do gaz. Tinha diante do papo guloso um copo cheio de morangos e um calice de Madeira secco.
Ao ver-me, com a mala e o guarda-pó, parado no solar da sala, recuou a cadeira e, com as bochechas tremulas, como um bolo de creme, roxo de vinho e de gozo, avançou para receber-me nos braços protectores, com tal effusão, que desfez todo o meu vexame, pondo-me logo á vontade junto a um peito largo e generoso solidamente reconstituido pelos debentures.