—Não, meu tio.

—Ah! Então demoro-me mais alguns minutos. É cruel deixar um amigo abandonado nesta triste sala em um dia como o de hoje. E de repente: E se jantassemos juntos...?!

—Onde? indaguei.

—Por ahi, em uma baiúca qualquer. Pretexto para conversarmos. Temos a ameaça de uma noite terrivel, podemos atravessal-a queimando punchs em algum gabinete, em companhia de alguem que nos ajude a arrastar o tedio até a madrugada.

—Aceito, mas com a condição de impôr alguma coisa: iremos a um theatro, não para o espectaculo, pouco me preoccupo com o que se canta em palcos, mas confesso, em intimidade, que tenho um desejo louco de ver a caixa de um theatro... Dizem-se tantas coisas...

—É horrivel, meu amigo, mas não pense que me recuso, póde dispôr de mim. E mais ainda, sei que não conhece o Rio á noite, proponho-me a mostrar-lhe, em uma noite, todos os mysterios desta cidade que começa a ter vicios. Joga?

—Pouco.

—Conhece a roleta?

—Conheço. E o doutor percebeu pela expressão dos meus olhos que eu não era de todo indifferente á tavola.

—Pois ha um meio de conciliarmos tudo; vamos jantar ao club. Voltando-se, o doutor deu com os olhos em meu tio, que assomára á porta, sempre jocundo, já acenando para o nosso lado. Levantámo-nos para recebel-o.