Demais se, como diz, as suas idéas estacam diante dos tumulos, devem igualmente estacar diante dos leitos.

—O doutor maneja adoravelmente o paradoxo.

—Perdão, não é o paradoxo, é a analogia. Diante de um dormitorio tem-se o exemplo perfeito, o symbolo, devo dizer, de uma pequena necropole: o leito é um esquife. Reza-se para dormir e reza-se para morrer; a lampada serve tanto para os mortos como para os que dormem. Uns e outros têm a mortalha...

—Doutor, mas isto é francamente o que nós outros, pobres rusticos, chamamos Poesia.

—Perdão, todo mysterio tem um fundo poetico. Mostre-me uma religião sem prophetas e os prophetas são os poetas esotericos. Mas continuando: o sonho não será a iniciação de uma outra existencia? O sonho não será uma previdencia?

O corpo adormecido roja-se; parece que tem a nostalgia da terra; e a alma? paira, fica de vigilia como ficava, segundo o pensamento dos padres de Osiris, de guarda á mumia em que havia habitado. O somno é o tunnel por onde a alma atravessa. Meu caro amigo, não ha morte: Sisypho é o symbolo da vida.

—Confesso, meu caro doutor, que apezar da belleza da sua doutrina, o meu espirito repelle-a. Escreva um poema com essas idéas, um poema de mysterio no gosto dos Versos Dourados.

—Pudesse eu, meu caro! Sacou o relogio e poz-se de pé: Vamos sahir? Isto está funebre.

—Tenho um encontro para as cinco.

—Feminino?