—É uma hypothese, aventurei.
—Como! uma hypothese? Não crê?
Sorri, e entrei a falar como se dictasse: As minhas idéas sobre psychologia estacam diante dos tumulos: depois da lapide mais nada. Não posso comprehender essa verdade suprema dos philosophos romanticos—a vida posthuma. Alma é o atomo, alma é a monéra, alma é a cellula, alma é o sangue. Das causas puras, doutor, só podem derivar iguaes effeitos, entretanto o odio germina dentro em nós, o ciume, a aversão, a antipathia, abjecções proprias da materia, naturalmente affecta á podridão pela sua propria essencia—o verme. O nosso corpo é um thermometro, de que o sangue é o mercurio. Nos periodos pacificos e normaes marcamos os gráus baixos da tranquillidade; um pouco que o sangue ascenda ao cerebro, como o mercurio sobe, ao calor dos fortes estios ou das febres, temos a exaltação, o delirio, todos os horrores do desequilibrio mental, todas as concepções extravagantes e allucinadas. Creio no Nirvana porque adoro o silencio. Ao céu, ao promettido paraiso, falta a primeira condição: variedade. A vida eterna deve ser monotona. O meu ideal é o fim absoluto. Isto de vida, doutor, é um phenomeno de attracção de moleculas. O homem vem ao mundo pela mesma razão porque vem á arvore o fruto, o fio d’agua á rocha: fatalidade, sympathia, cohesão, tudo quanto quizerem, da vida physica, da vida material; mas de alma, espirito invariavel e eterno, sopro de Deus, etc., etc.... não percebo. Alma como conjunto dos sentidos, admitto. O beijo é uma premissa do amor, o amor é uma manifestação da alma.
Doutor, estude a psychologia em uma criança: é um brutinho, incapaz de pensar, incapaz de outra coisa que não seja vagir e chupar tetas. A primeira manifestação é toda material: o choro, manifestação positiva do soffrimento ou do tedio, que é innato, e a fome manifestação do instincto—a alma mysteriosa não dá signal de si. Com o correr dos annos chegam os sentimentos, isto é, o aperfeiçoamento das sensações. É por meio delles que as fibras delicadas do cerebro e do coração vibram; essas vibrações formam a vida complexa do amor, do ciume, do desespero, do pensamento, etc. Para a velhice, com o declinio do corpo, todo o organismo definha e a alma, immortal e forte, em vez de sustar a queda da carne, auxilia-a porque os sentimentos affluem todos para a saudade, que é a velhice das paixões; ella é que vive até á caducidade, até á bestialisação, até á regressão ao primitivo estado de inconsciencia. Alma é a vibração da mocidade, alma é a ardencia do sangue. Infelizmente nós outros oscillamos entre dois crepusculos—a ignorancia da primeira idade e o pavor do fim dos annos. Não creio, doutor; em alma, não creio.
—Mas, pelo amor de Deus, meu amigo... acudiu elle, vejo, pela prelecção que acaba de fazer, que é um materialista intransigente; isso, porém, não impede uma observação singela. Abriu um parenthesis para propôr mais champagne; recusei e elle continuou firmando-se nas minhas palavras: Vivemos entre dois crepusculos, disse o meu amigo, mas os crepusculos succedem-se numa eterna continuidade—as almas têm o occaso em um corpo, mas resurgem em outro. A alma existe como existe a luz e ha de existir até á ultima dynamisação. O corpo é um casulo. Como já lhe disse, creio firmemente na vida eterna das almas. A civilisação é o resultado da longa pratica do espirito humano: a carne é uma especie de alambique, mediador plastico entre a concepção e o movimento. Os homens que fizeram as primeiras obras, os donos das idéas iniciaes, são esses mesmos que as continuam. A morte é apenas uma solução de continuidade.
Nós não fazemos outra coisa senão aperfeiçoar o que dantes fizemos. As idéas tem o seu alpha na antiga era. Ha uma estranha connexão entre o pensamento moderno e o modo de ver dos antigos—a synthese de hoje vem da analyse de hontem. Nós, a civilisação, estamos continuando a nossa obra barbara. Somos os mesmos. A alma de Lucrecio resurgiu em Virgilio e a de Pythagoras, antes de metter-se no corpo do sophista, animou Euphorbio, filho de Panthous. Quem sabe se dentro do meu amigo não vive a alma sceptica de Zenon?
—Não, doutor, a alma que se aloja em meu corpo nunca perscrutou mysterios transcendentes—é a mais ingenua das almas, contenta-se com um pouco de sonho e com um pouco de amor. Como disse, as minhas idéas estacam diante dos tumulos. Depois da morte mais nada.
—Mas, meu caro amigo, note que já os egypcios pensavam que «a morte é um meio e não um fim»—um meio de perpetuar a vida. A sciencia moderna vai desbravando o mysterio da immortalidade: o zaimph de Isis cahiu deixando a grande deusa descoberta, e são tão fortes e peremptorios os argumentos em favor da existencia perenne, que é hoje quasi um absurdo a negação da Eternidade da Alma.
—É possivel, doutor.
—É de uma arvore que murcha que se colhe a semente para as florescencias futuras. As suas idéas estacam á beira do tumulo, porque encontram o silencio completo? não; porque encontram a realização perfeita do absoluto? não; um cadaver, posto que vasio, existe. Nada se perde, nada é inutil. O espaço é o nada e o espaço existe. Que tem o espaço? constellações; a morte tem tambem os seus astros, o fogo fatuo, por exemplo, é uma estrella funeral.