O doutor mirou-a. Mademoiselle estendeu-me a mãosinha:—M’sieur... e friamente, dando as pontas dos dedos ao doutor:—Au revoir!...

Au revoir, Marie; disse com lentidão cruzando as pernas e, quando a viu sahir, passando nervosamente a mão pelos cabellos, exclamou entediado. Idiota!

—Zangou-se? indaguei com interesse.

—Ciumes... Que quer o meu amigo? não ha um ser perfeito. Veja essa mulher divina... é ciumenta. Ciumenta a ponto de fazer tolices. Bolas...! E casmurro: Eu sei como tudo isto acaba: vão ambas para a rua! não ha que ver. Vão ambas para a rua... E recuperando o natural: Então está combinado?

—Perfeitamente.

Trincou um charuto e irrompeu assomado:

—Um dia magnifico, não ha duvida... magnifico! enguliu um pouco de champagne e continuou: Não sei se o meu amigo cultiva a volupia do somno matinal, o somno das seis ás dez? É uma delicia! O somno da noite dorme-o todo o ser—o operario e o poeta, a agua gemente e a flor, mas o extra languido, o somno tepido da indolencia, esse é exclusivo dos privilegiados que conhecem a vigilia—esse é incomparavel, porque, não sendo um acto normal, é um vicio e, como todo vicio, encanta. Eu penso assim. Difficilmente deixo os lençoes antes das dez. Acho que um homem de gosto deve encontrar o dia pleno, em viva luz, passaros cantando e tudo em ordem para recebel-o porque, sahir pela manhan, á hora em que a natureza se arranja, quando o sol nasce e os passaros acordam, produz em mim a mesma sensação de desgosto que experimento quando entro em uma sala de jantar no momento em que o copeiro estende a toalha. É odioso! Sou um commodista extremado—gosto de achar tudo prompto, limpo e nitido—o céu todo em sol, a mesa já florida. Haverá coisa mais ridicula para os olhos de um homem do que surprender a mulher amada diante do espelho, em penteador, sem meias, amaciando a cutis ou trançando os cabellos, ainda com os olhos empapuçados de somno? É desolador! Levanto-me tarde, desço para a ducha, visto-me—uma grande hora de trabalho lento, mirado e caprichoso—e ganho a frescura do jardim, uns metros de terra onde brotam cravos e bogaris, sob a copa frondosa de uma amendoeira amiga. Ahi leio pausadamente os jornaes e bebo o café e o cognac, ouvindo os meus canarios. Sem essas minudencias sou um homem inutil. Recolhi-me tarde, muito tarde, e sem somno. Reli uns capitulos de psychologia experimental e confesso que fiquei impressionado. Eram talvez quatro horas da manhan, cantavam gallos pela visinhança, quando consegui conciliar o somno. Pois ás seis fui violentamente acordado, porque um intimo carecia do meu auxilio para resolver uma questão magna. Note o meu amigo que sempre tive uma decidida vocação para a gynecologia, recuei diante do forceps e dos outros apparelhos de viabilidade fetal simplesmente porque as senhoras preferem dar á luz á noite... Se não fosse a hora incommoda preferida pela genese, eu seria hoje um parteiro notavel. Sou advogado, homem de leis e de rhetorica. Desci desesperado. Borrifei-me com um pouco d’agua, sorvi, ás pressas, um gole de café e, ainda em jupon, bocejando, recebi o intimo na minha sala de estudo. Quer saber o motivo da visita do meu illustre despertador? a crise de transportes. Baniu-me do leito para pedir-me um artigo violento contra a Central. Escrevi, deve sahir amanhan. É um horror! resente-se terrivelmente do meu estado de espirito. O intimo collaborou dando-me a assignatura, que é um mysterio de que elle faz segredo: A alma de Frei Góes. Não sei que quer dizer, mas presumo que ha dentro disso coisas de subido alcance. Mas agora, entre nós, que diabo tenho eu com a crise de transportes? Cruzou os braços e encarou-me. Que tenho eu com tudo isso? As cargas que apodreçam ao sol, pouco se me dá que haja ou não sal em Matto Grosso e sapatos em Goyaz. Que se arranjem, deixem-me em paz, deixem-me dormir. Que tenho eu com a crise? Houve uma pausa curta e o doutor tornou: Depois do artigo uma scena de ciumes. Uma mulher idiota que se revoltou porque um intrigante qualquer lhe foi dizer que andei seguindo os passos de uma hespanhola, no Polytheama. Virou o resto do champagne. Eu sentia-me meio atordoado—ardiam-me os olhos amortecidos de somno.

—Mas, meu amigo, voltando á minha leitura da noite: confesso que estou deveras impressionado. Tem lido os modernos estudos psychicos?

—Alguns.

—E... que pensa da alma? indagou.