—Sim, justamente porque eu não estava. E o 29?
—Não foi mal, disse com circumspecção o gordo; creio que repetiu. Espere lá... Sacou do bolso uma tira crivada de numeros e, acavallando o pince-nez, consultou—13, 22... ahn... ahn... 29! disse com voz forte... ahn... 29! e... 29! Tres vezes! Dobrou discretamente as notas e guardou-as.
—Vamos ver hoje.
Da ponta da mesa uma voz esganiçada pediu vinho. E travou-se uma palestra viva, cruzada, em que os numeros entravam ás porções, atropelando-se. Discutia-se e, mais uma vez, ficou provado que á roleta não se podia applicar principio algum, porque não havia uma lei que se pudesse dizer exacta,—tudo dependia do acaso. Um rapazola citou Pascal, afiançando que o methodo do illustre autor das Cartas provinciaes era de incontestavel merecimento. Entreolharam-se pasmados e o gordo, cuspindo o palito, indagou:
—E você porque não segue os conselhos do tal Pascal?
—Mas sigo, como não?
—Ah! Então percebo: Pascal tem um methodo excellente para ensinar a ficar limpo. Houve uma gargalhada estrepitosa e o rapazola, corrido, procurou desculpar-se com o temperamento:—Que era um precipitado, sem paciencia, sem calma.
—Qual, menino: só ha uma sciencia—é a sorte. Manda-me para cá a Escola Polytechnica em peso e quero ver se ella arranja alguma coisa com os calculos.
—Esta é a verdade, disseram.
—Qual Pascal, qual carapuça! Olha o Monteiro: tem horror ás mathematicas, é incapaz de sommar duas fracções...