—É que elle só joga nos dias impares: tem a superstição ás avessas.

Caminhamos lentamente, em silencio; por fim observei ao meu amigo:

—O senhor joga friamente.

—É um engano, meu amigo; apparento.

—Mas não se distrae. Parece que não acha prazer...

—No jogo? muito! Penso com os modernos que dizem que o jogo é um prazer esthetico. O gozo do jogador, pela tenacidade da emoção prolongada e forte, pela ausencia do sentimento, porque é um phenomeno todo material de sensação, excede o do artista que contempla embevecido, por longo tempo, uma obra de genio. Os sentidos, no jogador enfebrecido, atrophiam-se e tornam-se uma especie de abstracção, algumas vezes excessiva, a ponto de o deixar em immobilidade de hypnotico, emquanto corre o azar da bola ou das cartas. O jogo opera como a morphina—excitando e abatendo: é um estupefaciente. A emoção é cruel sem deixar, por isso, de ser agradavel. Se não educa o gosto, educa as paixões: a luta com o acaso torna o homem indifferente, quasi stoico. Habituado ás contrariedades não soffre com os revezes, acha-os naturaes, aceita-os sem protesto, passivamente, como aceita as sortes da banca. Alguem descobriu que o jogo era uma manifestação da hysteria, foi talvez por isso que a sabia Europa instituiu para os hystericos dessa mania, o grande hospital de Monte-Carlo. Mas olhe o bond... vamos!

E deitamos a correr em direcção ao bond.

XI

Vamos refocilar na devassidão, disse o doutor quando nos apeamos. Infelizmente a besta que trazemos em nós exige esse mergulho de quando em quando. Os hygienistas não se aperceberam desta grande verdade: o homem espoja-se. O corpo exige, com a mesma tenacidade, o exercicio e a insania, a tensão dos musculos e o enervamento, como o espirito requer o real e o ideal. O vicio mantem em silencio a carne: é um repasto material. É preciso satisfazer o animal. Estudei profundamente o organismo do homem e cheguei á convicção de que a vida serena é um absurdo impraticavel. A vida deve sujeitar-se ás leis do movimento—a variedade é um facto. Confesso ao meu amigo que sou avesso ao deboche, detesto a vida de noceur; mas sinto, de longe em longe, necessidade de atravessar uma noite desfolhando rosas em champagne, no fundo de um gabinete discreto, com uma grisette que me recite a léria do amor, trincando lascas de fiambre e queimando cigarrilhas. Acho prazer, prazer perverso, porque sou um detestavel instincto. Estacou e disse-me de novo: um detestavel instincto.