Se pudesse viver como me inspira o temperamento, garanto-lhe, meu amigo, que as chronicas terriveis de Gilles de Rais desappareceriam como banaes e pueris. Depravar a humanidade!... deve ser um prazer magnifico. Ver todo um mundo no vicio, numa orgia sardanapalesca, ao sol, cantando. O vinho a correr pelo leito dos rios. Em vez de barcas, grandes cantaros fluctuando; e gente a beber, a cambalear, a cahir, besuntada e tropega, crianças e velhos, virgens, monjas, tudo, a babel terrivel do satyrismo, num diluvio roxo escoado de todas as torneiras e de todas as vinhas... que delicia! E calmo: O vicio é uma necessidade, affirmo-lhe.
Jogo e depravo-me como empanturro o estomago, como ingiro a medicina. Para mim a pilula e a esphera da roleta pertencem á mesma therapeutica, operam diversamente, mas operam. Para os males do figado calomelanos, para o tedio uma parada commovedora. As mulheres interessam-me pela estranheza do typo: adoro a mulher de amor, não pelo seu beijo, mas pelo seu estudo, porque é curioso ver como esses animaesinhos sabem attrahir. Algumas, pobres camponias, ainda com as mãos grossas do cajado com que andaram a pastorear nos campos, conhecem melhor a arte de agradar, as delicadas minudencias do amor que interessam, que prendem, que sensualisam, do que as eruditas educadas em finos boudoirs, lendo brochuras ardentes. Acho adoravel a cocotte—é um sexo neutro—alguma coisa de homem, a tactica commercial, alguma coisa de mulher, a hypocrisia. De resto, é uma valvula de segurança social. Um contemporaneo da academia, rapaz de finissimo espirito e talento não vulgar, dizia-me sempre: que sentia, de tempos a tempos, necessidade de embriagar-se. Encerrava-se e bebia. Era uma medicina.
Aventurei citando Simão Carreira, que, nos momentos em que a musa lhe foge, vai ao pucarinho e derreia bebedo acordando, no dia seguinte, dyspeptico e amarrotado, mas com a imaginação fulgurante e provida para um novo canto do seu poema ou para meia duzia de sonetos, que immediatamente registra para o Correio da Serra, orgão superiormente litterario para as alturas em que vê a luz.
—Mas é assim, meu amigo. A castidade atrophia, deprime, suffoca o espirito. O amor é um derivativo. Não o amor sentimento: o amor sensação. Afinal, que vamos nós buscar no fundo de um theatro, prazer? distracção? arte? não absolutamente: vamos cevar o animal. No meu programma de educação, inaplicavel, porque não tenciono perpetuar a minha crise de spleen, dando ao mundo um representante de meu tedio e das minhas desillusões, entraria, como curso fundamental—o vicio. O vicio, pois não. O epigono constitue o seu caracter com mais vigor nos camarins e nas tascas do que nas escolas. Que diabo ensina o mestre? ensina a evitar o vicio, o que vale dizer—mostra outro vicio. É uma verdade o que Comte deixou escripto: «Não se destroe senão o que se substitue.» Afinal a vida é uma constante marcha e a natureza tem as suas leis. Para seguir é preciso tomar rumo. O mestre diz que não se vá pela direita; então o caminho da moral é o da esquerda e ahi vai o pimpolho arrebatado pelo temperamento e induzido pela logica do pedagogo para peior deveza. E por fim a educação inutilisa um homem que podia ser perfeitamente aproveitado. Meu amigo, os primeiros ciumes fazem os futuros bravos, os primeiros amores fazem os futuros poetas. A moral é uma palavra van; toda a gente a pronuncia e poucos a praticam. Qual moral, qual nada!... o corpo exige. Emmudeceu de repente.
Haviamos chegado a um largo, e na parte fronteira á rua por onde seguiramos, uma grande cauda de luz electrica alastrava o passeio argentando as arvores e, ás vezes, ganhando o céu como uma esteira de luar.
—Variedades, disse-me o doutor. Mas se fossemos ao Sant’Anna?
—Como quizer...
E seguimos. O doutor, depois de um silencio, avisou-me: Mas não se illuda—olhe que a caixa de um theatro é um pouco peior que a caixa de Pandora...
—E a esperança, doutor?
—Fica á entrada, como no distico do Dante. Vai ver de perto a illusão, que é uma triste realidade. E voltando a rua: Eis-nos chegados, disse.