Á porta do theatro formigava uma multidão impaciente. Logo que nos aproximámos, dois sujeitos avançaram pressurosos, offerecendo bilhetes:—que eram os melhores, que na casa só havia da ultima fila e perseguiam-nos tomando-nos o caminho, embaraçando-nos o passo, sofregos, afflictos. Safámo-nos briosamente e ganhámos a bilheteria. Tomei a frente ao doutor e, enfiando a mão pelo guichet, bradei:
—Duas cadeiras!
—Uma! Uma só, disse elle.
—E o senhor?
—Não preciso; tenho entrada.
—Uma, emendei; uma cadeira. E, recebendo o papelucho das mãos do bilheteiro, examinei-o: Lettra L... que tal?
—No inferno...! Mas como não tencionamos assistir, qualquer coisa serve. Vamos.
O doutor encaminhou-se vaidosamente e confesso que, pela primeira vez em minha vida, senti picar-me a inveja vendo-o passar entre os porteiros grave, sem uma palavra, como se entrasse por sua casa. A mim tomaram o papelucho e rasgaram uma nesga entregando-me o resto; ao doutor disseram com respeito: Boa noite!
Achei-me num estreito pateo de terra humida. Para um lado, um correr de portas verdes com um oculo ao alto; para outro lado, mais adiante, um balcão de bebidas—na mesma direcção um tablado coberto, cheio de mesas de zinco entre as quaes passavam atarefados caixeiros carregados de copos. Mulheres subiam e desciam opulentamente vestidas, saracoteando, com grandes leques de plumas, deitando olhares, franzindo sorrisos; outras tagarelavam em grandes rodas de rapazes, com gargalhadas estridentes; e uma velhusca, de preto, com uma barbicha no queixo, como as feiticeiras de Macbeth, estremecia, mostrando as gengivas desertas, rindo estridulamente aos galanteios de um meninote de chapéu de palha e terno de flanella branca.
—Vê este seculo, meu amigo?