—É a propria velhice...
—É Venus ancestral. Essa mulher é o centro do mundo equivoco—é ella quem dirige as neophytas e dizem que tem um curso admiravel de sciencia. Dá lições diarias ás que pretendem fazer carreira pelo caminho que Laïs trilhou arrastando poetas e o tonel de Diogenes. É uma mulher digna de consideração: sem ella não haveria novos encantos, nem os languores imprevistos. A sabedoria está com os velhos, meu amigo. E, baixinho, soprou-me: Olhe a Marion, evitemol-a. Era, em verdade, a loura, a formosa loura ciumenta e aspera, que acariciara os meus sapatos com o pésinho minusculo.
—Se a convidassemos para a ceia, doutor?
—Não... não... Excede-se e dá para chorar a sua infelicidade, porque essa divina mulher tem saudades da patria e da honestidade e, quando bebe vinhos de França, lamenta não ter um filho e fica de tal modo nostalgica que, ao cabo da lamentação saudosa, é sempre necessario que venham tres homens para leval-a ao carro. Não... não...! Evitemol-a.
Marion bebia e tão entretida estava com a sua garrafa de Apollinaris que não deu por nós.
—É sobria, entretanto: bebe agua, á grega.
—Sobria? quem...? Marion...?! porque está bebendo Apollinaris? Conheço muito essas medidas preventivas: é que ella conta ceiar, meu amigo, e está recompondo o estomago para um diluvio de Bourgogne. Mas vamos. Tomámos por uma das alas do theatro e, justamente quando voltei os olhos para a scena, entrava um grande diabo, brandindo um facho, a bradar coisas terriveis, ao clarão purpureo de fogos de bengala. A orchestra ia num crescendo infernal—quasi se não ouvia a declamação do maldito quando surgiu uma legião de diabos vermelhos, truculentos, dançando em torno do rei a berrar, a bramar, á proporção que os musicos, num delirio satanico, sopravam com furia, batiam com gana, dando ao espectador pasmado a idéa aproximada do que deve ser a musica nesse reino negregado de chammas, onde as almas penam torrando-se em labaredas inextinguiveis, sob abobadas de granito em brasa. Felizmente, porém, houve uma pancada vibrante e os demonios sumiram.
Cahiu um novo panno: Uma aldeia risonha sob um ceu de azul, com uma igrejinha branca a um alto e na eira da herdade, no primeiro plano, entre médas de palha e instrumentos agrarios, camponios a espadellarem linho, cantando um villancico meigo.
—Vê aquella velhota que ali vem por entre arvores...? É a Jesuina.
—Por Deus! mas é uma antigualha!