—Engana-se. É uma bella mulher. Vai convencer-se...

Os homens, que se apertavam á minha frente, pouco me deixavam ver. Puz-me nas pontas dos pés, já interessado pela velhota quando, subitamente, vi surgir o demonio, sem archote, os braços cruzados, numa attitude hostil, e berrar:

—Fada... não sei que... e uma infinidade de palavras que deviam ser de insulto, porque a velha poz-se tambem de entono e avançou hysterica, vociferando:

—Ainda não!... Cahiram-lhe os andrajos, o cajado transformou-se em sceptro enramado de folhas de ouro e eu vi uma esplendida mulher, de fórmas admiraveis, resplandecente na sua toilette feerica.

—Linda, com effeito, doutor! disse maravilhado.

—Ah! é esplendida! E languido, com os olhos em alvo, trincando o beiço: E que mulher! A scena atroou aos berros dos camponios, que deitaram a correr espavoridos. Ficaram sós, desafiando-se—o diabo negro e a fada. Houve uma troca de palavras e novo tchaan! Pannos cruzaram-se acima e abaixo. Nova scena. Jardim florido, entre grutas. Mulheres: nymphas, disse-me o doutor, tangendo lyras e cantando. Cahiam do céu, como na lenda de Danae, palhetas de ouro. O diabo, estortegando, vencido, urrava com os joelhos em terra, e a fada, com um gesto cheio de magestade, mantinha-o subjugado e immovel. Romperam palmas e o panno veiu descendo lentamente.

—Vamos falar á Jesuina.

—Pois não, doutor. Pois não... E partimos atravéz da multidão que recuava.

O doutor bateu á porta da caixa, e appareceu ao postigo uma cara ossea, macilenta, hispida de pellos, indagando soturnamente: Quem é?

—Abre, Amaro.