O cérbero sumiu-se batendo o postigo e logo abriu meia porta, por onde nos esgueirámos rapidamente. Ambiente de estufa—mal se podia respirar. Não haviamos ainda caminhado dois passos quando vi surgir a uma porta o truculento diabo, abanando-se, com um charuto nos beiços, muito ancho. O doutor acenou com os dedos um cumprimento intimo. Entre os bastidores torvelinhava a gente do movimento arrastando peças accessorias, içando nuvens, pregando sarrafos. Dois homens, agachados junto de uma rocha sarapintada, ajustavam cordeis, e um moreno, de sobrecasaca, a cara rapada, berrava para as bambolinas:

—Ó Candido! ó Candido! desce mais essa vista! mais! mais, homem! Que diabo... mais! e bateu uma patada formidavel.

—Mais á frente...! ordenava um outro, alto, de cavaignac, aos homens que collocavam a rocha... ahi...

Um soldado, com o capacete atirado para o sinciput, passeava de um para outro lado, cantarolando. Um pequenote passou por mim esbaforido, arrastando uma carapaça de saurio com grandes escamas.

Era difficil atravessar-se, porque de toda a parte surgiam genios, demonios, soldados, mulheres, atropelando-se, azafamados, lançando appellos, a correr, empurrando-se.

O doutor avançou e, mostrando-me uma escada larga por onde desciam coristas trauteando, disse:

—Vamos subir... Isto aqui em baixo é impossivel. E galgámos os degráus, ganhando um passadiço por onde andavam actores, refrescando-se com ventarolas. Um, em trajo de principe, vociferava no camarim, sacudindo uma gaforinha loura:

—Que aquilo era uma vergonha, um nojo! E sahiu bradando: Ó Ferreira! ó Ferreira! Vocês não viram por ahi o Ferreira! Ah! grandissima besta!...

—Mas que é? indagou um escudeiro acaçapado e ventrudo, arrastando a durindana ferrugenta.

—Olha p’ra isto... e tomou a cabelleira nas pontas dos dedos. Isto é decente? Pois eu hei de entrar em scena com esta peruca?! Não entro, nem que me rachem! E berrou de novo: ó Ferreira! ó Ferreira! Outro assomou á porta de um camarim, em ceroulas, todo sarapintado: