Duas mulheres passaram por nós discutindo em dialecto aspero, esgrimindo com os leques, frementes, terriveis. As vozes subiam, já da platéa reclamavam silencio com prolongados «psios».

Os homens, que cercavam a balaustrada, interessados no escandalo, vieram aproximando-se. Descia gente em tropel e as duas, uma em frente da outra, ameaçadoras, mirando-se roxas de furia, vociferavam com grandes gestos. Repentinamente brandiram os leques e engalfinharam-se—os chapéus rolaram para o chão, as fitas voaram e, apezar da immediata intervenção de alguns rapazes, as duas lutavam, já com os leques partidos, numa algazarra bravia. Na platéa havia gente de pé. Os actores, em scena, emmudeceram e o grande diabo, curioso, coçando o queixo agúdo, alongava os olhos procurando ver á distancia as heroinas. Os coristas, amontoados sem ordem, cochichavam. O regente voltara-se e varios musicos, de pé, olhavam curiosamente; um deixou-se estar sentado, aproveitando a balburdia para afinar o seu violino. Trilaram apitos, mas já haviam apartado as belligerantes. Appareceram praças e o povo foi descendo, em onda compacta, em direcção á porta. Ouvia-se ainda, de vez em vez, um guincho colerico. Por fim irrompeu uma assuada tremenda e gargalhadas estrepitosas abafaram as phrases violentas de uma das mulheres.

Já no palco haviam recomposto a scena, o diabo carregara de novo o sobr’olho e, quando avançou para o ponto, sustentando uma nota grave, de novo o povo reclamou silencio e, pouco a pouco, foi recahindo a tranquillidade.

—Foram presas, doutor?

—Não, fazem-n’as sahir simplesmente. Estalaram palmas estrepitosas, olhámos: o panno vinha descendo lentamente sobre uma scena flammejante.

—Falta-nos ainda um acto, suspirou o doutor. E não ha infelizmente duas outras mulheres ciumentas.

Ao fim do espectaculo, depois de uma fulgurante apotheose no reino das perolas, de grandes pylonos côr de opala, regado d’aguas lactescentes, floridas de nelumbos por onde andavam cysnes alvadios, reino administrado pela magia dos olhos de Jesuina e pelos cordeis do machinista, veiu abaixo o panno ao som abemolado do côro triumphal das nymphas, que exaltavam o poder da soberana. O diabo, corrido e humilhado, estarrecido ao fundo, entre columnas gyratorias rugia, rolando os grandes olhos chammejantes e orlados de malacachetas. O povo, em delirio, prorompeu em gritos, victoriando a boa fada pelo seu nome humano, mais doce, talvez, que o da magica:

—Á scena, Jesuina! Bravos a Jesuina! E uma voz isolada accrescentou num berro agudo:

—Jesuina na ponta!

E tudo desappareceu.