—Pois até lá. E vai ter com Satanaz, que te espera.
Despedi-me tambem e descemos.
A orchestra executava os primeiros compassos de uma marcha infernal, quando, de novo, ganhámos a frescura do jardim.
—Então, meu amigo?
—Divina, disse eu. O diabo é que isto demora. Que havemos de fazer...?
—Vamos á cerveja; não ha outro meio de fugir á insipidez.
E abancámos.
—E dizer que toda essa gente goza, ponderou o doutor, num tom melancolico de lastima. Isto que me enfada, que me provoca bocejos, faz as delicias de uma multidão. Olhe ali aquelle homem debruçado á balaustrada... Quanto eu daria para poder rir como elle! Decididamente esse casal do paraiso levou-nos o melhor da vida—a innocencia, deixando-nos em troca o tedio. Felizes os simples!
Não imagina como invejo um desses homens que são specimens raros do animal primario, que se destacam, entre os civilisados, como um grande cedro num campo raso. Ás vezes, quando passo por uma dessas casas de pasto, onde o grosso povo de trabalho se ajunta para comer, tenho impetos de entrar, sentar-me no mesmo banco, acotovellando estivadores e canteiros, fascinado pela voracidade pantagruelica desses brutos que devoram pratos enormes, com mais apetite do que um de nós, em dias de fome, trincaria uma fatia de caça. Nós somos os degenerados. Que mais pode ambicionar um homem que já experimentou todas as sensações e que leu os materialistas? Que ideaes pode ter um ser esgotado? Nem riso nem pranto. Sinto-me vasio e inutil. Já não existem imprevistos para mim. Tudo dimana de causas naturaes, diz a philosophia, e acham os evolucionistas que feliz é o homem que conhece todos os phenomenos da natureza, que sabe dizer, sendo preciso, por que razão a pedra deriva a gotta d’agua, para onde caminham as correntes dos rios, quantos millenios tem Syrius, porque é pallida a lua, quaes são as causas que presidem aos fluxos dos mares, a origem do homem e tudo mais que a sciencia investigou para esterilisar os productos mais delicados do espirito que, a meu ver, são—a imaginação e a esperança. Felizes são esses pobres homens que crêem nas boas fadas dos caminhos e nos genios dos campos. Felizes são esses que vêem na Via Lactea o caminho sagrado dos reis magos, attribuindo a pulverisação das nebulosas ás patas dos dromedarios que vieram do Oriente parar á entrada da lapa em que Jesus dormia. Felizes são os que podem ainda imaginar mysterios... Oh! os crentes, os religiosos! esses é que são os bemaventurados, não no céu, aqui mesmo, na terra, porque esperam, porque não duvidam. Aquelle homem que ali está desfeito em gargalhadas nunca leu um aphorismo, desconhece a syntaxe e as causas finaes, nunca atravessou uma noite acotovellado á banca do jogo, nem de certo poliu os seus beijos procreadores—é um simples. Trabalha e crê, conhece o Ave e respeita a Lei, ama e quando chega á casa, estafado e moído, o seu primeiro cuidado é para o filho mais novo—toma-o nos joelhos e brinca com elle a rir. E dorme em paz, porque não tem problemas a resolver nem gazes de dyspepsia. É um animal amoroso e puro... E sinceramente, não é preferivel levar a vida assim materialmente, em ignorancia beata, abençoando as estrellas cadentes e commungando, de vez em vez, a andar pelo mundo empanturrado de pessimismo, repetindo com o «Ecclesiaste» que tudo é vaidade?
O homem não nasceu para maldizer sómente, creio eu. «A resignação é o heroismo da desgraça.» Um moralista exprimiu-se mais ou menos nestes termos, mas eu devo confessar que não tenho absolutamente o sangue heroico—sou um pusillanime. Dêem-me novidades, imprevistos, qualquer coisa que me commova: um grande amor, um grande odio. Infelizmente, porém, o amor adquiro-o como adquiro as luvas e os plastrons, por um preço, por outro, mas sempre a dinheiro... É sordido! É vil! Não foi para mealheiro que Deus, ou não sei quem, fez o coração. O amor é uma permuta de affectos e não um mercado. Mas que quer? comprar um beijo, pagar um sorriso, subornar uma meiguice... eis em que consiste a civilisação; isso é requinte, é espirito.