—Estão cançados de esperar? indagou sorridente.
—Nem por isso.
Jesuina pareceu-me menos formosa no seu vestido marron e com a cabeça coberta por uma capota de veludo. Confesso—e vai nisto uma ingenua franqueza—confesso que a Jesuina que meus olhos aguardavam anciosos e desinsoffridos era a outra, a que eu vira no palco, entre nymphas, na nudez artistica do maillot, afoufada em rendas, com os cabellos soltos e á fronte o diadema régio. Era assim que eu esperava vel-a, de sorte que tive uma pequena desillusão quando ella assomou á porta, em toilette vulgar, como todas as mulheres, ella, que para mim não era outra senão a propria, a verdadeira fada das perolas, que apparecera em scena, affrontando o Demonio. O doutor sussurrou-lhe:
—Aceita o braço que te offerece o meu amigo, tenho de dar um pulo á Maison para desfazer um compromisso. É um instante. Comprehendi a delicadeza do pretexto e adiantei-me pressuroso e ella, voltando para o meu rosto os olhos incomparaveis, ainda assim menores do que os que me haviam seduzido, indagou:
—Onde vamos?
—Onde quizer, disse-lhe.
—Ao Bragança, não é?
—Ao Bragança, sim, affirmou o doutor. E venham vindo porque já os encontro no Rocio. E até já. Partiu como uma frecha.
—Thereza, podes ir, disse Jesuina á velhota.
—Boa noite, meu senhor. Então até logo.