Veiu numa grande terrina fulgurante e alumiou a mesa com um clarão tábido. O doutor, num assomo, ergueu a sua taça e pronunciou um brinde em que passaram, lembro-me vagamente, as gerações que adoravam Agni, o immortal, o lume eterno, e veiu pelos caminhos difficeis da historia, parando em todos os templos para mostrar, no mais reservado do ádyto, a chamma sempre vigilante, que é o symbolo da fé. E bebemos.
Findam ahi as minhas memorias dessa noite. Do que mais houve não sei—tenho o estomago abrasado como se houvesse emborcado a terrina, engulindo vorazmente o punch em chammas.
Meu tio, surgindo á porta do quarto, com uma physionomia grave e carregada, fulminou-me com o olhar.
—Bom dia, meu tio.
—Bom dia, disse-me elle, puxando uma cadeira para junto da cama.
Compuz as cobertas, enfiei os dedos pelos cabellos para alisal-os e esperei grandes coisas porque, certamente, iam cahir grandes coisas da boca de meu tio.
—Então, que foi isso hontem?
—Isso que, meu tio...?
—Ali! meu sobrinho, razão tem teu pai—elle é que está no caminho da verdade. Na carta que me escreveu disse-me que não te désse liberdade, que te trouxesse sempre debaixo das minhas vistas, porque és ainda uma criança, apezar dos bigodes que tens. Decididamente és ainda muito criança, concluiu meu tio, baixando a cabeça como fulminado por um pezar profundo.
—Mas que houve, meu tio?