—Você só!?

—Sem duvida. Quando se vai á Cythera é perigoso levar farnel.

—Pois sim... E, com um muchocho, Jesuina achegou-se a mim. Senti-lhe as carnes... Que carnes!

XII

Triste manhan.

Bocejei espreguiçando-me e estirei-me na cama, mas com que alquebramento! Sentia uma fadiga de longas jornadas, como se tivesse viajado sem repouso estiradas leguas ao sol, curtindo fome e sêde. Doíam-me as pernas, e que saburroso gosto, Deus meu! e que dormencia de idéas! Tentei, por vezes, saltar da cama, mas a energia abandonara-me. O corpo, apezar do esforço, abatia amollecidamente. Deixei-me estar deitado com os olhos no docel e, nessa attitude inerte, recapitulei as scenas da noite da vespera.

A ceia! Regalado repasto! Lembro-me que começou por uma salada de lagosta, que o doutor acolheu com uma prelecção sobre os molluscos e Jesuina com palmas e gritinhos. O que veiu em seguida não sei bem e não me seria facil recordar porque, emquanto o criado substituia pratos e talheres, emquanto o doutor recitava dythirambos exaltando a excellencia dos vinhos de França e do Rheno, eu extasiava-me nos olhos de Jesuina que, de vez em vez, abrindo sobre as nossas cabeças o leque de pennas, como a aza do amor, protectora e discreta, dava-me um beijo, mais doce do que o vinho, oh Sunamita! mais doce do que os favos deliciosos das abelhas, Aristêu!

A palestra erudita, finamente colorida e nobremente elegante do doutor, perdeuse. Era em vão que elle recapitulava as orgias primévas e os festins colossaes dos antigos. Que me importavam, a mim, as dionysiacas! Que me importavam os brodios de Roma e de Carthago se eu tinha ali, ao alcance da boca, a vinha por excellencia, que eram os labios da Jesuina. Que falasse o doutor, que não estancasse nunca a fluencia doutissima das suas palavras, Jesuina, com o seu arrulho de pomba mansa, prendia-me, absorvia-me todo e eu não tinha ouvidos senão para o que ella dizia e só aos seus beijos respondiam meus labios.

Vinhos diversos subiram da adega preciosa do Bragança e da adega á minha cabeça. Provei de todos, porque Jesuina queria que eu bebesse á nossa felicidade, ao nosso amor eterno, á estrella que nos illuminara o encontro, aos seus olhos, á sua boca... e eu, vencido, bebia sem murmurar até que, por fim, o doutor, sempre fecundo em idéas, encommendou um punch em chammas, ardente como o nosso amor.