Mlle. Delphina, romantica, durante uma languida habanera, falou-me, enternecida, do Serge Panine e criticou a toilette exagerada da viuva que girava, com o busto em nudez, enlevada nas phrases therapeuticas do seu amoroso par.
Do que ouvi, no vão de uma janella, emquanto D. Brites, contralto, cantava ao piano um melancolico romance de Tosti, ficaram-me as palavras do Dr. Silverio Torres, deputado da opposição, socialista. Explicou-me, entre outras coisas, que a miseria é um resultado da abundancia, como a lama é o resultado do excesso da chuva. O mundo, no seu rudimento, não conhecia a miseria, disse-me—-ella appareceu com a primeira moeda. E teve este pensamento, que deve ficar eterno como um dogma de economia politica: «Quereis ver um paiz de fome? entrai num paiz de millionarios», e estendeu o braço para o jardim procurando mostrar-me além, na grande noite, esse paiz de fome: Lá está, é a Inglaterra. Olhei machinalmente e vi as estrellas do céu. O Rio, disse-me mais, vive sitiado pelo varegista. Nós não temos esquinas, temos vendas, barreiras onde o pobre vai diariamente pagar o seu imposto. O taverneiro occupa os extremos da rua e, ás vezes, assalta o centro—e esse excesso de mercado é uma das causas da luta de contingencia. A luz é a vida, o excesso de luz é a chamma, é o incendio, é a morte. O taverneiro estabelecido torna-se, em pouco tempo, o senhor do quarteirão. Por intermedio do caixeiro, que vareja o mais intimo recesso da casa e espia e ouve emquanto conduz a lenha, levando para o patrão, conjuntamente com o dinheiro, o segredo da vida privada do pobre, o taverneiro torna-se uma especie de suzerano—elle fia, elle sabe. É das vendas que vêm os grandes desesperos para o proletario, é das vendas que partem as diffamações mais crueis. Dirão:—mas o pobre podia libertar-se desse jugo fugindo ao balcão do taverneiro. Infelizmente assim não é—nem sempre o mealheiro tine na casa do operario, o amanhan é tenebroso e no dia em que elle, baldo de recursos, por molestia ou por desemprego, tentasse o credito para o alimento dos filhos, o taverneiro, que não desconhece o prazer dos deuses, vingar-se-ia. A venda é o terror do pobre porque é o escoadouro do seu trabalho e, muitas vezes, a causa das suas lagrimas. Concordei. Elle ainda me fez saber o que eu, até então, ignorava—que essas casas de penhores são uma instituição do luxo. E demonstrou com sabedoria: Esses estabelecimentos de recurso prompto só recebem joias e objectos de alto valor. O pobre, quando muito, possue o collar que enfeita o pescoço do filhinho, as bixas modestas da esposa, um relogio de prata para marcar a hora do trabalho—tudo isso que vale?! Entretanto vá o senhor a um dos leilões das casas de emprestimos e ha de ver—braceletes preciosissimos, solitarios offuscantes, diademas, chuveiros, toda a joalheria fidalga e cara, porque a outra nem sequer é apreçada. O pobre vai aos belchiores e não empenha, vende: o casaco dos domingos, a cama em que lhe nasceram os filhos, o oratorio dos santos protectores. Logo: quem empenha? os remediados, os ricos, para manutenção da apparencia. E perorou iracundo: o prego é uma instituição do luxo, fomenta o vicio e a hypocrisia. Iamos entrar em outras analyses quando o commendador Bessa, a conselho de meu tio, veiu tirar-me para uma valsa com a Ex.ᵐᵃ Snr.ᵃ D. Adelaide Fogget, esposa de um importador. Dancei e suei. E chamaram-nos para a ceia.
Lauta e facunda, bons vinhos e tropos. Falaram todos, menos eu, que fujo á exhibição. D’entre os muitos discursos inspirados ficou-me o de um Bartholomeu de tal, gordo e curto, homemzinho redondo, um frasco. Louvou e bebeu com emphase; ao fim da terceira taça, rematou: que o commendador era da massa de D. João de Castro e explicou o parallelo. Perdi, infelizmente, a explicação porque Mlle. Delphina, que distribuiu os lugares, fez com que eu ficasse entre a contralto e o deputado opposicionista, de modo que, durante o transbordamento da facundia, os arroubos melomanicos da direita e as invectivas da esquerda distrahiram-me, ella que me dizia, com os olhos em alvo, que depois do Vorrei morire, só a morte, e elle que soprava maliciosamente aos meus ouvidos: Que áquillo só faltava o retrato a oleo.
Uma balburdia chamou a nossa attenção applicada á ironia—era entre as senhoras. Todas as damas pediam ao deputado que respondesse por ellas ao brinde do pharmaceutico, que saudara na mulher a joia mais delicada sahida das mãos do Creador. E o deputado, mastigando, ás pressas, uma febra de presunto, empunhou a taça e disse coisas lindas, agradecendo em nome do sexo feminino. Depois da ceia (dezoito brindes e duas taças quebradas para que nunca mais concorressem a elevação dos dotes de um mortal, á mesa) voltámos ás danças.
Grande coisa a vida! Já não baixo á terra fria sem o supremo gozo de ter passado uma noite em sociedade. Como é divertido um baile... Oh! simplicidade do meu campo, oh! cateretês da minha serra ingenua...! Ó noites no rancho, á beira da estrada, com a luz do luar, o bom cheiro dos bogaris abertos e a cantilena do serrano, ao som da viola, emquanto os curiangús contentes saltam piando na estrada lisa...
Recolhi-me com a noite—ella a desapparecer no céu, eu a mergulhar nos lençoes, estafado e triste. Acordei ás tres da tarde, moído. Meu tio, mal soube que eu abrira os olhos, subiu ao meu quarto para dizer-me que o doutor estivera com elle; e deu-me um cartão. Li; era laconico e generoso.
«Meu caro:
Vim trazer-lhe o abraço de despedida. Parto para Belém no comboio da tarde. O meu caseiro escreveu-me, relativamente á venda de uma porcada (é o termo). Vou á verdade da vida—o interesse. Tenho um sitio e consolo-me das durezas e dos desenganos deste mundo cultivando rosas e criando porcos: o perfume e a linguiça, a floricultura amada dos atticos e o suino repellido pelo Koran. Levo commigo um livro seu que achei sobre um dunkerque: Eschylo. É um scaphandro para garantir o espirito. Boa viagem.
Sempre affectuoso
Gomes.»
—Então, meu tio, exclamei radiante, elle não levou a mal os murros...?