XIV

Tu, imprudente moço da parabola messianica, tu, de certo, sentiste, voltando ao lar, desilludido e pobre, a mesma impressão que me feriu o espirito quando, abrindo os olhos á luz clara da manhan, reconheci o meu quarto modesto, alvo como uma cella monastica, ornado singelamente com os meus instrumentos de caça. Ao fundo, num velho armario tosco, os livros das minhas leituras ao lado da mesa ampla e pesada das minhas meditações.

Coisas minimas para as quaes raramente se voltavam meus olhos, como as mirei extasiado! E que prazer em folhear brochuras, em reler fragmentos, em passar a mão pelos couros estirados nos muros claros! E quem diria que eu, tão exigente outr’ora, achando infecto esse jornalesco patricio o Phanal de Tamanduá, havia de ler, desde o artigo de fundo sobre a questão do casamento do Braz Lamenha, infenso ao pretor e á lei, redigido pelo meu venerando mestre o reverendo Coriolano, até o annuncio do bazar do Pindella. Decididamente não ha nada para revigorar o amor como a saudade.

Os rumores deliciavam-me e enterneciam-me—deixei-me estar muito tempo a ouvir o chofrar das aguas do moinho, perto do meu quarto, e descobri um encanto divino no balido das ovelhas que erravam pelos caminhos.

Leve, longinquo, soava o sino da parochia, ora brando, ora forte, conforme a brisa e nasceu-me uma estranha curiosidade de saber se aquelles toques, que vinham pela manhan limpida, sonoros e festivaes, eram por algum santo ou pelo baptismo de mais um sertanejo. Mas, acalmando-me, entrei por uma duvida incoercivel recapitulando a vida fantastica desses oito dias aventurosos, que tão depressa correram. Pareceu-me que jámais passara além das montanhas levemente esfumadas no horizonte, reduzi essa viagem da minha imaginação a uma simples sortida de caça—a mesma fadiga que eu sentia era natural depois de tantas escaladas atrevidas, depois de tantos saltos temerarios, ravinas acima, penhascos abaixo.

Que trazia eu que me demonstrasse ter vivido nessa cidade de luxo e de vicio, tão celebrada entre serras pelos que, uma vez, pisaram as suas ruas e admiraram o seu fausto? Que trazia eu como documentos affirmativos? a carta de meu tio...? Sim, era uma verdade a carta, tanto que arrancara a meu pai estas profundas palavras cheias de sabedoria: «Que eu me deixasse de sonhos. Que me dedicasse á terra, que é uma fonte perenne de riqueza, porque neste paiz a lavoura é que rende, e citou a phrase do estadista—isto é «um paiz essencialmente agricola» aconselhando-me que não a perdesse de memoria. Tudo mais, vaidade das vaidades.» E ajuntou: «que mais valia ter uma junta de bois e uma charrua para sulcar o solo do que todas as cartas das congregações. E, por fim, lembrou que a terra não produz perfidias nem calumnias e que viver entre as arvores é bem melhor do que viver entre os homens.» Convenci-me e decidi ficar no campo, lavrando.

Sonha-se tanto! Já uma vez sonhei que era amante de Cleopatra. Vivi dois longos mezes felizes, de amor lascivo e de festas com a formosa rainha que me chamava: Ri-Ri.

Com ella enlaçado subi o Nilo muitas vezes, numa barca de cedro, que tinha um cysne de ouro á prôa. Charmion sempre mimosa, cuidava dos meus cabellos lavando-os em essencias que vinham da Ethiopia e, até hoje, guardo a physionomia simiesca de um retinto nubio de nome André, (coisa estranha, nome exotico na terra de Isis), que era o encarregado de encher o rython de prata por onde bebiamos, Cleopatra e eu, e descia a comprar-me cigarros quando me faltavam.

André...! é uma figura indelevel na minha memoria. Entretanto foi tudo sonho; porque, se a propria rainha, desligando-se das tiras com que os embalsamadores a prenderam, quebrando o seu sarcophago, viesse dizer-me que me pertencera um dia, eu lhe diria brutalmente na face: Mentes como uma bruxa, filha dos Pharaós! Sonho, puro sonho. Com o Rio não se teria dado o mesmo phenomeno? Porque a verdade é que todos quantos caminharam pelas ruas da cidade excelsa gabam-lhe as maravilhas e de todos ouvi narrações de aventuras que eu, nem mesmo em sonho, concebi: mulheres que desciam a entregar-se, arrulhando entre limoeiros em flor; outras, mais abrasadas, que, em furor de ciume, ameaçavam com escandalos e punhaes, e noites delirantes e mil coisas que os persas imaginosos não incluiram nos contos de Scherazada.