Eu só não vivi: atravessei o Rio como uma sombra perdendo o fio do prazer quando já o tinha seguro e vendo differentemente de todos, atravéz do meu tedio e do meu sonho.

Assim foi que achei a rua do Ouvidor infima e acanhada; assim foi que abandonei o jogo no momento em que começava a accumular; assim foi que apenas provei o beijo de Jesuina e perdi a viuva. Todos os factos experimentados, sem remate, interrompidos em meio, justamente como nos sonhos. Seria embriaguez?... Teria eu atravessado toda uma semana bebedo como Pedro Macaco, que confunde os dias com as noites e não tem, desde muito, a noção exacta do tempo? Não creio. Sonhei, foi sonho decididamente. É assim quando sonho, sempre ha de vir uma mulher para suppliciar-me: foi Cleopatra primeiro, amei-a muito e passou; agora Jesuina.

A vida é um sonho. Quem sabe se não sonhei? Mas lá fóra ha uma voz que indaga—se cheguei do Rio. É Simão Carreira, sempre rouco, o mavioso lyrico. Então não, não é sonho.

Não ha nada mais real do que um poeta e Simão que pergunta se cheguei é porque sabe que parti. Então os sonhadores são outros que me fizeram a descripção do Rio, sonhadores ou mentirosos, sonhadores, em summa, porque a mentira é um producto de sonho. Mas Jesuina!? Foi sonho como Cleopatra, como Charmion, como o nubio André. Dreams! Dreams! Dreams!

E a vida é isto: sonho ou tedio. Antes sonhar.