Passavam palanques sob flabellos empunhados por grandes negros vestidos de saios rubros, com franjas de prata, adagas á cinta, emplumados turbantes á cabeça.
Plaustros rodavam com crepitações levantando uma nevoa loura.
Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de onix canellado, molle serpente de escamas de ouro, vibrando a lingua bifida, enroscava-se, em lentas espiras, ficando, ás vezes, pendente, a oscillar como uma grossa liana.
José olhava pasmado e Maria encolhia-se [{49}] timida, contemplando, deslumbrada, a cidade fulgente.
Não era a triste Sichem nem a sombria Jerichó. Que cidade seria aquella tão rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha região da Samária?
Subitamente, com improvisa fulguração, abriram-se de par em par as portas do templo maior e um grave cortejo appareceu no peristylo e vagaroso, solemne, poz-se a descer a fulgida escaleira.
Vozes, ao rythmo de instrumentos lyturgicos, entoaram um cantico glorioso.
O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte.
Ceruleo clarão refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves, armas lampejaram em meneio heroico e toda a turba templaria formou no atrium, [{50}] ergueu um sonoro louvor e rojou-se de bruços, com um tinir argentino de armillas e braceletes. E um homem alto, alado, com dois cornos de luz purpurea ardendo-lhe entre os cabellos crespos, surgiu no limiar de ouro estendendo amorosamente os braços a Maria extatica.
A voz com que a chamou reproduziu-se em echo no silencio mystico; o seu olhar ardia e, em torno do seu corpo atorreado, relumbrava um halo como se o emmoldurassem chammas.