—Illude-se quem julga que, ao voltar aos antigos lugares, encontrará as coisas como deixou: as proprias pedras modificam-se e não são varias como as almas.
Quando me annunciaram a morte de meu filho, pedi que me puzessem junto do cadaver, apalpei-o, beijei-o; ouvi os passos dos que o levaram a enterrar, mas não vi o enterro.
Ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e, ainda hoje, vou sentar-me no sitio em que elle avultava e sinto-me agasalhado pela ramagem que não existe e ouço a alegre voz dos passarinhos de outr'ora.
As coisas foram desapparecendo uma a uma, eu mesmo envelhecia, mas a cegueira conserva a visão do passado.
O sol parou para mim na mocidade [{74}] como parou sobre os muros de Jerichó á voz do batalhador.
Vejo dentro de mim tudo quanto deixei: as gentes, os animaes, as arvores, os lugares com as suas cabanas e os seus campos floridos.
Sou como a ave aprisionada, de pequenina, em uma gaiola, que não olha senão a limitada paizagem que fica em torno da sua vivenda triste. Soltai-a, esvoaçará atordoada e, se não regressar á prisão, morrerá de fome perdida nas florestas frondosas, se não cahir nas garras dos abutres.
O homem de Suza queria dar-me a liberdade. Para que? para eu morrer de saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim? Não!
Vivo no passado, o meu tempo já foi.
Não caminho para a morte, espero-a, sentado no limiar da mocidade, ouvindo [{75}] o rumor do tempo devastador, sem vêr os desastres, sem vêr as lagrimas, sem vêr os enterros.