O cégo
O velho era de Jerichó.
Esperava naquelle retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a Jerusalem e sempre recolhia uma azinhavrada moeda, um punhado de tâmaras ou um esgarçado albornoz em que se enrolava, bemdizendo, com palavras humildes e agradecidas, a generosidade dos homens, recommendando-os ao deus de Abrahão, de Isaac e de Jacob e indicando-lhes os melhores e mais seguros caminhos pelos montes. [{72}]
José ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde Maria adormeceu revendo, em sonho, a sua alegre Nazareth, as moças á beira da fonte, os pastores nos cerros, á hora macia da tarde, quando as cotovias baixam e desapparecem nas searas e as aguas das levadas cantam.
Conversaram os dois velhos—José falou da sua viagem, o cégo falou da sua cegueira.
—Estava assim desde moço, um raio cegara-o no campo, sob um sycomoro. Já se habituara á treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado ao carcere.
Um magico de Suza offerecera-se para cural-o. Pedira cem drachmas, baixara a cincoenta; faria por vinte se elle lh'as offerecesse.
Tinha ainda a sua cabana e ovelhas, vendendo-as reuniria a somma, mas, [{73}] pensando, resolvera deixar-se ficar na cegueira. E suspirou: