Maria parava de instante a instante, arfando.

Amollecida, alquebrada, olhava com desanimo os outeiros ainda longinquos e suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cançaço.

José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a carinhoso:

—Estamos a chegar. Lá apparecem as casas de Bethleem; as luzes brilham por entre as arvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem.

Ella parou, ficou a olhar o ceu nublado como a implorar alento para chegar ao termo da viagem.

—É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca que não sei se poderei acompanhar-vos até as collinas de além. Toda [{111}] eu esmoreço. O meu desejo é deixar-me ficar no caminho, deitada nas hervas, e dormir um somno grande.

Nunca me pesou tanto o corpo, o proprio espirito pesa-me, tão carregado está de medo e de cuidados sombrios.

Que será de mim e d'Elle ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de tudo, á friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um ferro mortal?

O chiar de um carro levou-lhes a attenção para o caminho deserto. Uma voz cantava na tristeza da tarde moribunda:

Hervas do campo florido,
Que aroma! Que trescalar!
Bem se vê que o seu vestido
Andou por vós a roçar.

Outeiro em flor, o teu vello,
Verde e fino, ao meu ciume
Confessa que o seu cabello
Deixou nelle o seu perfume. [{112}]