Na hora em que os gallos cantaram a primeira vez subito clarão resplandeceu no fundo da caverna. A luz foi tanta, tão intensa que atravessou o somno em que jaziam o patriarcha e o pastor.

José soergueu-se d'impeto, firmando-se nas mãos, offuscado pela claridade vivida que irradiava em stalactites de [{122}] um brilho augusto, mudando em rutilos diamantes todas as pedras brutas e fazendo do aspero sólo, eriçado em pedrouços, uma área esplendida como se fosse embutida de gemmas lapidadas.

O pastor, attonito, deslumbrado, arrastava-se tacteando e a caverna, a mais e mais aclarada, parecia toda uma chamma alva como se um luar maravilhoso a enchesse magnificamente.

Os dois homens, atordoados, não falavam—estendiam as mãos e os seus dedos chammejavam como raios d'astros e da luminosidade desprendia-se um perfume, novo na terra, aroma celestial que enlevava como um encantamento.

Além da caverna a noite negrejava calada e erma de estrellas. Poude o pastor arrastar-se até o limiar e o seu corpo, esgueirando-se, refulgia como o de uma salamandra. [{123}]

Tremulo, chegou á entrada, respirando, a largos sorvos, o ar frio que vinha dos outeiros. Levantou o olhar e recuou espavorido.

Escada altissima, de scintillantes degraus, ligava o cimo do outeiro ao ceu aberto em radiante pórtico e anjos desciam, tantos que pareciam uma catadupa que se despenhava espumejando iriada de sol, com scintillações de pedrarias.

Não poude olhar e, rojando-se, com a face na terra, ouvia o murmurio das azas.

Não disse palavra, immovel, tolhido de assombro, sentindo a transfiguração da noite.

José conseguiu levantar-se e caminhou lentamente atravez do esplendor.