O anjo
A noite, profundamente escura e fria, atravessada de vento, atroava o fragor de ramagens estortegadas e d'aguas precipitosas que se despenhavam, aos jorros, pelos algares. Nas chans ainda o transito era facil, sem o varejo da ventania que repulsava os caminhantes, como a impedir-lhes a marcha; mas nas gargantas, entre alcantis, as lufadas, abocando á entrada, esfusiavam desabridas, uivando com a furia de alcatéas famintas em ronda céva, a fariscar redis. [{14}]
Todas as estrellas haviam-se apagado, apenas rutilava, enorme, como lumareu de vigilia em torre, a que surgira e brilhava sobre Bethleem.
Os passos estrepitavam nos seixos, estalavam nas folhas e no ramalho secco.
Um ramo que bolisse, o lento defluir de um fio d'agua por entre pedras levantavam ruidos temerosos.
Ás vezes José detinha-se, hesitante na bifurcação de duas trilhas, mas pouco durava a duvida porque uma das veredas ennegrecia ainda mais, ao passo que a outra rutilava fulgida, como calçada a diamantes, offerecendo-se, clara e segura, aos peregrinos.
Como entrassem em sinuosa e esgalgada passagem, murada de rochas anfractuosas, eriçada de agaves e echoando como o ambito de uma caverna, ouviram [{15}] leve, frouxo ruido como de esfrolar d'azas.
Uma aguia, talvez, que acordara em algum teso e de pé, attenta, alargando as azas, ficára em attitude hostil prompta a arremetter em defeza do ninho.
O patriarcha, acolhendo a esposa meiga, cujas faces pareciam de neve, apertou com força o cajado e levantou os olhos.
Maria, sentindo o perigo, tartamudeou, timida e tremula, uma oração ao Senhor. O receio de um ataque em sitio tão desolado, longe de toda habitação, onde nem choça de pegureiro havia, deteve o homem.