Os corações batiam. Nella era o pavor do desconhecido, o grande medo tragico das sombras do Scheól, que erram, á noite, pelos descampados; nelle era temor por ella.
Não falavam, de olhos muito abertos, [{16}] quietos, immoveis como os rochedos que os emparedavam.
De repente um clarão fulgurou. A passagem illuminou-se, as pedras scintillaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata. E elles viram uma grande luz á flor da terra e clareando as rochas.
Aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada.
Levantando o olhar viram os dois a fonte do esplendor. Era um anjo que os precedia, ora trilhando os caminhos, ora voando acima das rochas, pousando nos alcandores quando o lento e fatigado andar de Maria retardava a marcha.
A virgem sorria de enlevo e José, tolhido de commoção, não se atrevia a encarar o guia resplandecente, cujo reflexo abria na terra um clarão de luar. E as azas aflavam docemente no silencio. [{17}]
A virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudára com as palavras mysteriosas, cuja promessa cumpria-se e José reviu o divino emissario que lhe [{18}] apparecera em sonho, sob a figueira do horto, defendendo a innocencia de Maria, em cujo seio, cemo em corolla de flor, a Graça perpassava em genese immareavel, fecundando-o como o sol fecunda a leiva, eternamente pura. [{19}]