Maria olhava receiosa aquelles homens rudes que cercavam seu Filho. Como eram muitos os mais velhos levantavam nos braços os pequenos para que vissem o Recem-nado e diziam-lhes: «Pede!»

As crianças, sorrindo, pediam pelo gado e pelas fontes: que ovelha alguma morresse, que nunca as aguas seccassem.

Um pequenito, sentado no hombro de um agigantado pegureiro, olhava pensativo e calado.

«Pede!» disse-lhe o homem.

—Se Elle fosse Deus... murmurou a criança, e uma lagrima rolou dos lindos olhos infantis. Os outros adoravam e, no silencio, ouvia-se apenas, de quando em quando, um timido balido.

Repentina, triumphante, uma voz bradou á entrada da caverna:

—Gloria a Deus Salvador! O pastorinho estremeceu no hombro do pegureiro, [{145}] voltou a cabeça e viu uma andrajosa mulher livida, macilenta, que estendia os braços magros procurando abrir passagem na multidão reverente.

Reconheceu-a e, desprendendo-se dos braços que o mantinham, correu ao seu encontro e, lançando-lhe os braços á cinta, disse commovido:

—Fui eu, mãi, que Lhe pedi. É Deus! Entra e adora-o. Dorme nas palhas.

Os pastores, reconhecendo a entrevada que vivia a gemer, encolhida num estrame, recuaram pasmados e ella, tremendo como se estivesse de pé sobre uma lapide de neve, perguntou ao filho que a contemplava: