Tomou-o Maria ao collo, acalentando-o ao calor do seio. Falava-lhe com ternura, interrogava-o, chamava-o e, sem poder allivial-o, poz-se a chorar afflicta e, sobre a divina face as suas lagrimas cahiam gotta a gotta como o orvalho cahe das folhas sacudidas pelo vento. [{149}]

Ai! d'ella, como se julgava culpada e infeliz vendo soffrer o pequenino amor, tão novo, tão innocente, tão sem culpa e já supportando as torturas herdadas da carne.

Começava a Divindade a visitar o soffrimento: a peregrinação de Deus atravez da Agonia annunciava-se pelo primeiro choro.

Elle havia de conhecer todas as Dôres, todas as Angustias para poder julgal-as alliviando o Homem, cuja redempção trazia.

Tenro, mal pousado na vida, já estrebuchava doridamente. E começava apenas—era a iniciação.

Outros maiores tormentos formavam a phalange suppliciante, a alameda tragica da existencia, onde a alegria é como o nimbo solar que passa difficilmente por entre as frondes compactas.

Que fazer? Deu-lhe o peito. Poz-se [{150}] o Infante a mamar vagindo, estremecendo e ella, relanceando em torno os olhos humidos e afflictos, implorava o mysterio.

Tudo era silencio em volta, ninguem que a soccorresse. E os anjos? Já haviam regressado ao ceu.

O Infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrava desacompanhado no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros homens, integrando-se na Humanidade.

Só lhe valeram os carinhos de Maria: o calor do collo, o enlace amoroso dos braços, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, alliviando-o e, de novo, adormeceu tranquillo, não mais sobre a palha loura, mas aconchegado ao seio, ninado pelas palpitações do coração materno. [{151}]