—É que me parece estar morto. Não faz o mais leve movimento e, quando elle assim fica, meu coração pára retransido.
—É a serenidade. Só o somno dos maus transmitte ao corpo a convulsão do pesadello.
O somno é uma visita á morte: os innocentes fazem-na sorrindo, os peccadores fazem-na espavoridos.
Não receies que Elle passe tão cedo á Eternidade de onde veiu. Ainda que não trouxesse a missão que o fez baixar ao mundo, fosse Elle tão da terra como o filho da zagala dos montes, não o deverias tirar do repouso.
Não desenterras a semente por não [{159}] a veres á flor do solo, deixas que ella venha a flux e rebente, abra o renovo e cresça.
O somno é uma incubação. Porque não sonha? porque não tem impressões. O sonho é como um reflexo em que ha echo, é a reproducção confusa da vida com a repercução indistincta das vozes e dos ruidos.
Ha quem veja presagios no sonho como o nómade vê realidades na miragem.
Com que ha de sonhar quem não tem consciencia da vida? Deixa-o dormir.
É á noite que a floresta cresce e a criança é como a arvore.
O luar é manso, é uma luz silenciosa de vigilia, uma tunica diaphana sobre a treva—não desperta. As estrellas são meigas porque a noite deve ser tranquilla para que a Natureza descance. Peixa-o dormir. [{160}]