—E entre o que diz o coração e o que affirmam os anjos hesitas, Maria?
—Senhor, os anjos falam pelo Ceu, o coração fala pelo meu amor. Se Deus acha-me rebelde, curvo-me ao seu castigo.
E, humildemente, ajoelhou-se ante o berço.
Jesus, abrindo os olhos claros, profundos, fitou-os nella e, como se lhe quizesse responder, sorriu. [{156}]
O somno
Maria mal humedeceu os labios á borda do tarro de leite de ovelha que o pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apprehensiva. Se o filho estremecia sobresaltava-se-lhe o coração, se o via immovel, dormindo, temia que houvesse morrido e logo, anciosamente, afagando-o, chamando-o, despertava-o.
—Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarcha, o somno é necessario á vida, é a sombra em que a alma repousa. [{158}]
O espirito das crianças refugia-se no somno como o dos velhinhos—o primeiro porque d'elle sahiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o procura como abrigo. Não o despertes, deixa-o dormir.