Que seria feito delles? Caminhou alguns passos. O coração batia-lhe, tremia-lhe a urna ao hombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu esconderijo: [{153}]

—Aqui, meu senhor. O patriarcha adiantou-se e, sentindo a friagem do sitio, ouvindo o triste gottejar na lage, perguntou:

—Porque buscaste tão obscura jazida onde o ar regela e a luz não chega? Lá fóra ha um calor macio e sente-se o aroma das hervas vivas, ouvem-se as vozes alegres. Aqui ha o silencio e a melancolica espessidão dos tumulos.

—Eu estava só, meu senhor e o coração, [{154}] dantes tão animoso, é agora tão timido que eu viveria, de boa mente, num subterraneo só para que olhos maus não fitassem meu filho nem o invejassem adoentando-o.

Não sei que voz me fala dentro do coração pedindo-me que o defenda. Ouço-a a todo instante.

Dizem-me os anjos que Elle é Deus... Não me passaram despercebidos os prodigios da noite: tudo vi, tudo ouvi, mas minh'alma ordena-me que o resguarde, que o não perca de vista, que sempre o traga acautelado, talvez porque é pequenino e fraco.

Não sei se pecco com a presumpção de defender quem é omnipotente, mas como hei de lutar contra mim?

—Mas se o ceu nos diz e prova que Elle é o Filho de Deus porque has de receiar os homens?

—É o coração que receia. [{155}]