A estrella
Ao declinar do sol, quando cessava toda a alegria rural e, quietos, em magotes brancos, os rebanhos desciam das pasturas e o canto das aves morria em estrebilhos tristes, José, á entrada da caverna, as mãos cruzadas sobre o cajado, contemplava o ceu macio, barrado de ouro no occidente, onde os outeiros pareciam arder como altas pyras sobre as quaes flammejasse um lume votivo.
Um molle, languido quebranto prostrava a natureza. [{176}]
As arvores espreguiçavam-se em movimentos morosos; raros passaros aligeiravam o vôo atravessando a luz vesperal.
Nas quebradas sombrias crescia a voz das aguas borbulhantes, saltando, escachoando de pedra em pedra até fluirem mansas sob as pendidas ramas que pareciam tremer de frio.
Longe, na cidade, resoava o tumulto humano.
Grossos rolos de fumo negro subiam aos ares, fundiam-se, dissipavam-se e, á medida que a noite conquistava a paizagem, apontavam pequeninas estrellas esmaltando o ceu.
A voz de Maria no fundo da caverna entoava suavemente. Era o encantamento maternal, a mimosa cantilena com que Jesus adormecia.
O patriarcha, recolhido em pensamento, olhava, e, como se voltasse para [{177}] o lado do oriente obscuro, viu um como fulgido alfange chammejando na treva.