O PROFESSOR—(Curva mais a cabeça approximando-se mais, assim, da mão).
A DISCIPULA—(Sem a retirar). O que faz?
O PROFESSOR—Nada, minha senhora... ia vêr melhor o grão da pelle.
A DISCIPULA—(Ligeiramente desapontada). Ah! julguei...
O PROFESSOR—Oh minha senhora! Pensar tal a meu respeito! Não sabe que o flirt é o amor sem desejo, a sombra do Amor? Eu não podia dar-lhe um beijo!{20}
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[FLIRTS]
A ANTONIO BANDEIRA
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[FLIRTS]
Maria do Carmo, curvada sobre a meza, folheia os ultimos envois de Paquin e Redfern. Um candieiro com um largo quebra-luz de seda e rendas lança-lhe sobre o cabello uma aureola de oiro. O corpo está mergulhado na penumbra. Na sala, os moveis tomam aspectos fantasticos. Os espelhos teem um brilho pallido. Gonçalo, ao entrar, beija a mão que Maria do Carmo lhe estende, sem levantar os olhos dos papeis.
MARIA DO CARMO—trinta annos, com dez de casamento. Sem filhos. A vida passa-se-lhe em visitas, raouts, recéções e bailes. Alguns livros da moda, recommendados por Marcel Ballot, no Figaro, e Jean Lorrain, por curiosidade. Interessante como um enigma, ás vezes perversa. Não se lhe conhece um amante, mas indicam-se muitos. Não toca piano.
GONÇALO—não tem uma branca, mas no meio da animação, ficticia, vê-se um grande cançaço de viver, como se tivesse experimentado tudo. Procura por toda a parte, como um gourmet, o manjar fino. Epicurista, delicadamente depravado, como um roué da Restauração, ou um elegante do fim da republica romana.