—O amor é o choque...
—Muitas vezes o cheque.
—Que jeu de mots tão velho! É o choque de duas almas. É preciso que girem bem, no encontro. São duas electricidades que se combinam. Conhece a theoria das duas metades da maçã?
—Conheço: é uma figura de rétorica...
—Não é. Andam duas creaturas por esse mundo, ignorando o seu futuro, achando a vida sem rasão, idiota...{26}
—Escolhe uma mentira vital, como diz Ibsen. Conheço-lhe o charabia...
—Deixe-me acabar. Corre mundos, faz tolices, fecha-se dias em casa, até vae ao circo ver as focas... E nada! Um dia, sem saber como nem porquê, uns olhos encontram-se com os seus, numa multidão. Ha a faisca... Pode ser um santo ou um bandido, lindo como o Rubempré, estupido como um tenor, candidato á grilheta ou futil como um janota. Fica-se presa; somos d'elle para toda a vida, ficamos amarradas a elle, como uma sombra... É assim o Amor, é feito de imprevistos... Não tem rasão alguma de ser, mas é.
—Uma coisa fatal? Tem que ser?
—Sim.
—Permite-me que discorde?