—É teimoso.
—Sou. Já viu alguma discussão dar resultado? O amor é sempre creado por nós. Não amamos senão a pessoa que queremos amar. É, como tudo, um acto voluntario. Ha escolha. Vemos uma mulher, vinte, trinta vezes, sem nos fazer impressão alguma. Um dia ella repara em nós. Se é bonita, elegante, calça no Chapelle e veste na Lippman, pelo menos, a nossa vaidade sente-se satisfeita e começamos a descobrir-lhe encantos, a crear alguns, a afeiçoal-a ao nosso geito. Ao conversar com ella, pomos intensão nas frases ôcas que diz, vemos mysterio{27} no seu sorriso... Estamos presos.—Um bello dia, porém, por qualquer motivo, torna-se util acabar com o pesadello da mulher que aparece em toda a parte: sae das brasas do fogão, a que nos aquecemos, da pagina que lemos, do fumo do cigarro, do papel em branco em que vamos escrever ao nosso procurador. Repara-se um pouco nella. Descobre-se o primeiro defeito. Exageramol-o para o grotesco. E da deusa perfeita tambem as flores e fica uma caração que faz rir.
—Uma theoria...
—Não é, creia. Acontece-me isso duas ou tres vezes por anno. Sabe que ando sempre com uma paixoneta... ou mais. Levo oito dias a fazel-as cair do peito.
—E vive feliz?
—Inteiramente feliz. Saber contentar-se não é a suprema sabedoria? Para que se inventou o flirt?
—O flirt? Que horrivel coisa? É a «sombra chineza» do Amor...
—É melhor. É o perfume. Os delicados contentam-se. É preciso comer uma flor? Não, basta respirar-lhe o aroma. Ora essas conversas, meio sentimentaes, a um canto, ditas em voz baixa, sublinhadas pelos olhos que toda a alma illumina, são como o roçar de azas que fossem flores. Ha o ligeiro premir dos dedos, sob os leques, certos tremores de labios, como se os beijos n'elles esvoaçassem, uma concentração{28} de todo o ser, que parece boiar no ether, leve... As phrases não se arrastam, n'um espasmo. Teem palpitações, lançam-se n'uma curva larga, até desapparecer em estrella. Não conhece o flirt. Todo o ser é livre e vae entregar-se, rendido... Cada palavra toma um sentido misterioso... Vou-lhe contar um flirt... Estava na Suissa.
—Internacional?
—Cosmopolita. N'um d'esses cantos, que ultimamente o Cook estraga, na Engadine. Paisagem de gelo, hotel de gente podre...