—De chic?

—De chic. Conheci uma americana, deliciosa como um fructo acre, que vivia fora da coterie swell. O americano vae-se tornando terrivelmente rasta. Trinta annos? Talvez... Mas trinta annos frescos, sem rugas, viuva depois de dois mezes de escasso matrimonio com um formidavel brasseur d'affaires de New-York, cerebro em ebulição permanente que acabou n'uma neurasthenia aguda. Iamos passear sós, pelo gelo. Sentavamo-nos nos pontos de vista que o Bœdeker não indica, paisagens tristes de tanta brancura, sem uma mancha. Fugiamos dos five-ó-clock, das parties bulhentas em complicada companhia. Comecei a amal-a. Tinhamos lido os mesmos livros, sobre elles fallavamos: gostavamos das mesmas musicas, d'esse Schumann cheio de côr, dolente e envenenado;{29} preferiamos aos flamengos gordurosos e aos hespanhoes sombrios, o delicado misterio dos Vinci, a graça fina e brilhante de Raphael.

A fallar de quadros e de romances, as nossas almas tocavam-se, porque um sentido novo brilhava em cada palavra; e parecia que cada frase terminava n'um beijo. Ás vezes, levemente, as nossas mãos tocavam-se. Era rapido e delicioso. D'esse contacto ficava uma lembrança, como d'um perfume. Amor platonico? Não. Um flirt. Sem arroubamentos. Sempre a Alma livre, sempre o beijo a tremer na bocca, sem cair... Uma ou outra vez, comprehende, por esquecimento...

—Comprehendo. Sem malicia...

—Essa mulher tinha realisado todo o meu sonho! De resto acontece-me isto muitas vezes. O sonho varía com as mulheres que nos interessam. Mas essa parecia realisar tudo. No seu corpo ambiguo, de egipcia, parecia conservar-se, como um fructo no gelo, uma adolescencia eterna. As suas mãos finas, pesadas de tantos anneis em que Vever pozera todo o seu genio estranho, floriam gestos d'uma caricia delicada e terna. A sua alma, que parecia ter visto tudo, ainda sentia a vida com frescura. As horas que passei junto d'ella! O perfume, uma mistura sabia d'Houbigants, então dernier bateau, perturbava... Longe d'ella, não pensava n'outra coisa. Recordava-me dos gestos, os pequenos{30} detalhes da toilette e da conversa, um rosar de pelle sob as rendas, uma palavra, um grain de beauté, que tinha na nuca. Sabe como acabou? Ella propoz-me casar. Fechei-me no quarto, horrorisado. Casar, eu? Uma mulher que me julgava capaz d'isso! Era preciso abater esse amor orgulhoso, que crescia no meu peito. Que defeito tinha ella? A principio não vi nenhum... Fui procurando. Tinha, ás vezes, quando fallavamos em francez, erros de grammatica deliciosos. Comecei a achar ridiculo essa ignorancia. D'ahi passou para os vestidos, para o corpo, o peito chato, sem ancas... Tudo caiu. Essa mulher pareceu-me horrorosa... Comecei a troçar d'ella, do seu bas-bleuismo... Por fim ella resolveu partir. Lembro-me perfeitamente. O gerente do hotel levou-lhe um enorme ramo de bluets, os raros amigos tambem lhe levaram flôres. Todo o carro estava cheio de flôres. Sentou-se entre ellas, afagava-as, cortára algumas para cheirar. Chorára. Ainda me deitou um molho, que tinha beijado. O carro partiu, como se fosse um açafate. E a sua face branca era como uma flôr triste... Não tive pena. O amor já caira. A gente ou gosta ou não gosta, conforme quer.—Vamos fazer um flirt para experimentar?{31}

[LOGICA]

A ANTONIO DA COSTA CABRAL (THOMAR)

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[LOGICA]

N'um garden-party. Emquanto no tennis se cruzam as palavras inglezas, e no kiosque, d'onde caem chuveiros de glicinias, se discutem mãos de bridge, afastados, junto a um roseiral, Joanna, Maria e Miguel veem jogar.

JOANNA—Toda a face branca é illuminada por dois largos olhos negros. Casada ha dois annos com um sportsman enragé, que prefere o cabo de uma raquette, o leme d'um outrigger, o guidon d'um automovel, á mais terna caricia da mulher. Usando e abusando do flirt, um em cada dia, ás vezes dois, tem periodos de fidelidade: quando quer torturar alguem. Provoca-o, chama-o, fal-o entontecer com promessas. Quando o vê absolutamente rendido, foge, para pensar n'outra coisa, ou em coisa alguma. Não vae ao fim de nada. Desenha, mas nunca terminou um esboço; toca piano, mas deixa sempre o trecho de musica suspenso a meio d'um compasso. Tem medo de acabar. É uma natureza hesitante.

MIGUEL—Nada intellectual. Um bom animal intelligente. Tem viajado. Mas prefere o steeple-chase de Auteuil a uma première no Vaudeville. Admira a força. É um leal. Dá o seu coração sem reservas. É, actualmente, o flirt fixo de Joanna.

MARIA—Vão-lhe falhando os admiradores. Os cabellos brancos não lhe ficam bem. Não sente muito a falta, nem se irrita com a felicidade alheia. Natureza simpatica, hoje rara.