Paulo era um romantico. Paulo vivia de pouco, como as aves do ceu.{47}
[A BISANTINA]
A LUIZ FERREIRA DE CASTRO
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[A Bisantina]
No café, diante do cocktail vulgar, eu esperava um amigo. Fôra mais cedo para a entrevista, de maneira que antes da hora lêra os jornaes, folheára as revistas, olhára para o relogio, consultára até o barometro, interessado. Iam saindo os clientes, aos poucos. Conforme se levantavam das mezas, o criado, n'um crac apagava a lampada electrica. Eu ficára já, n'um canto, quasi na meia luz. No fundo da sala as lampadas faiscavam nos espelhos, telintavam os pratos, as discussões cruzavam-se.
Esperava em vão... Comecei a ceiar.
D'ahi a pouco um rapaz veiu sentar-se ao pé de mim. Conhecia-o de o vêr nos cafés nocturnos, quasi sempre em companhia de mulheres faceis, estardalhando, contando façanhas de orgias nas vadrouilles de Montmartre; de quando em quando, como n'uma expansão, falava de um quadro que entrevira n'um museu, alguma{50} luminosa festa da Renascença, um nú veneziano, ou preciosas figurinhas dos primitivos, simples e mal desenhadas, entre brocados de oiro.
Mas nunca me ligára, correndo a minha vida n'outra direcção. N'essa noite, admirei-me de elle deixar a bulhenta sociedade que sabrait le champagne, para se acolher ao silencio, á quasi obscuridade.
A principio bebeu a pequenos goles o Bucellas que mandou buscar. Tinha o ar de quem hesita em praticar um acto, o recolhimento subito d'um gesto esboçado, ensimesmava-se, enchia novamente o copo, lia attentamente o rotulo da garrafa.